Aos 52 anos, ele acaba de realizar um sonho. No último dia 12, assumiu a presidência do Sindicato dos Sapateiros de Franca, o maior da cidade, com um orçamento anual que passa dos R$ 2 milhões. Sebastião Ronaldo de Oliveira é conhecido nos movimentos sindicais. “São 25 anos dentro do sindicalismo e não me arrependo”.
Nestas quase três décadas, Sebastião viu o movimento crescer na década de 80. Depois, assistiu aos rompimentos que acabaram dividindo o sindicato em dois e, em 2014, disputou sua primeira eleição à presidência da entidade. Perdeu. Foi à Justiça e conseguiu provar que a eleição havia sido fraudada. No início deste mês, Sebastião entrou de novo na disputa. Desta vez, sagrou-se campeão.
À frente do sindicato, ele recebeu o Comércio, na tarde da última quarta-feira, e falou sobre os danos causados pelas disputas internas, a quase falência da entidade e dos seus planos.
Em 2014, o senhor foi um dos candidatos na eleição para assumir a presidência do Sindicato. Acabou derrotado pelo grupo de Agnaldo Madaleno. Denunciou irregularidades no pleito. Procurou a Justiça e conseguiu que uma nova eleição fosse realizada este ano. O senhor venceu. Como é assumir a presidência do Sindicato depois desses episódios?
Foi uma satisfação muito grande. Foi um processo muito longo até que conseguíssemos realizar novas eleições. Foram meses lutando na Justiça, apresentando as denúncias sobre o que aconteceu aqui (no sindicato) na eleição passada. Não podia ficar quieto. Foram tantas irregularidades comprovadas, que a Justiça achou por bem realizar um novo pleito. Eu tinha certeza de que, se desta vez as coisas fossem feitas da maneira certa, eles não venceriam. Não tinha dúvidas disso. Mas o que me deixa feliz, mesmo, é ver a alegria dos sapateiros, dos nossos trabalhadores. Eles têm vindo até aqui para nos dar o parabéns, para nos agradecer. Eu fico muito feliz porque sei que fiz o que achei certo. Agora vamos reconstruir o sindicato com a participação dos trabalhadores.
O senhor citou que foram feitas denúncias de irregularidades na eleição passada. Recentemente, houve uma troca de acusações entre membros da antiga diretoria, mais especificamente, o ex-presidente Agnaldo Madaleno e o apoiador dele Geraldo de Almeida Xavier, o Geraldinho. Como é para o senhor ver o sindicato envolvido nesta situação?
Com tristeza. Primeiro é preciso deixar claro que houve falta de responsabilidade das pessoas que me antecederam na direção do sindicato. Chegaram ao meu conhecimento muitas denúncias sobre irregularidades, fraudes e desvio de recursos. Assumi o sindicato há pouco mais de uma semana e ainda não tenho a comprovação de que eles (os ex-diretores) agiram desta maneira. O que estou fazendo é organizar o que deixaram de documentação aqui para, então, ver por onde começaremos as investigações. Quero fazer um verdadeiro pente fino em tudo o que se refere ao sindicato nos últimos cinco anos. O que posso dizer, no momento, é que já há indícios de que muitas coisas foram feitas de maneira errada. Não quero dar detalhes agora, porque, como já disse, ainda não tenho as provas. Mas quando houver a comprovação, tornarei público tudo o que fizeram e como fizeram.
Para o senhor, que tem quase três décadas de trabalho dentro do movimento sindical, como é ver o maior sindicato de Franca em meio a suspeitas de irregularidades?
Não só eu, mas toda a categoria, sente uma indignação muito grande. Quando os trabalhadores votam em alguém para comandar o sindicato é porque acreditam que aquela pessoa vai defender seus interesses, vai ser o seu representante. Não foi o que aconteceu. Ninguém esperava ter que assistir esse tipo de troca de acusações. É triste. Revolta. O sindicato não tem que servir a interesses particulares. Não é um lugar para as pessoas ganharem dinheiro e se aproveitarem. É para lutar pelos trabalhadores. A gente fica muito indignado quando vê que isso não foi feito. Não dá para admitir que pessoas que nem pertencem à categoria venham aqui administrar. Não dá para terceirizar o sindicato. É um absurdo.
O senhor assumiu a direção do sindicato no último dia 12. O que já conseguiu analisar?
Quando entramos aqui, a primeira coisa que levei foi um susto. Sinceramente não sei como o sindicato ainda está funcionando porque todas as contas estão atrasadas. Todas. O aluguel aqui da sede não é pago há quatro meses. As contas de água, luz, telefone também estão vencidas e não são pagas há três meses. Os oito funcionários que trabalham no sindicato não recebem salário também há 90 dias. Tem prestadores de serviço que já vieram me procurar dizendo que estão esperando há seis meses para receber. Isso sem falar nas pessoas que estavam trabalhando aqui mas não tinham qualquer registro ou documento. Uma coisa de louco. Para piorar, as contas bancárias do sindicato também estão zeradas. É desesperador.
E o senhor já sabe como lidar com tantos problemas financeiros? De onde virão os recursos?
Então, estou tentando renegociar tudo. Conversando com os credores, pedindo um pouco mais de paciência e um voto de confiança. Não temos de onde tirar. O sindicato não tem patrimônio nenhum. Só um carro velho que entregaram na última quarta-feira todo detonado.
O Sindicato dos Sapateiros é o maior da cidade. Segundo informações do ex-presidente Fábio Cândido, só em contribuições sindicais obrigatórias a entidade recebe por ano cerca de R$ 2 milhões. Como pode um sindicato com esse volume financeiro estar no vermelho?
Essa é a pergunta que tenho me feito todos os dias desde que assumi. Como chegamos a este ponto? E não é apenas não ter receita. É ter dívidas acumuladas que ultrapassam os R$ 300 mil. Não ter nenhum patrimônio. Não ter oferecido nenhum benefício extra aos trabalhadores. Onde está este dinheiro? Onde está o dinheiro que deveria ter sido usado em favor da categoria? R$ 2 milhões significam cerca de R$ 170 mil por mês. É um volume considerável. Isso sem falar nas mensalidades que são pagas pelos associados. Então eu pergunto: onde foi parar tudo isso?
E quais medidas o senhor pretende tomar para responder a estas perguntas?
Estou contratando um especialista para uma auditoria nas contas. Vamos conferir tudo o que foi feito. Confrontar os documentos e notas fiscais. Será um trabalho muito grande porque tudo aqui está desorganizado. Não conseguimos encontrar quase nada nos computadores. Então estou tendo de chamar o contador e os advogados para me passarem as coisas. É complicado. Mas não vamos desistir. Vamos até o fim. Também pretendo encaminhar um relatório à Justiça do Trabalho, que manteve a ex-diretoria provisoriamente à frente do sindicato, para que a juíza saiba o que fizeram aqui e tome as providências que achar cabíveis.
Nos últimos anos, o que temos visto é um esvaziamento da participação dos trabalhadores nas assembleias e votações do sindicato. A que fatores o senhor atribui esse distanciamento dos sapateiros?
A falta de confiança no trabalho do sindicato. O trabalhador vê esses escândalos. Percebe que os diretores não estão interessados em ouvir e defender a classe trabalhadora. Então de que adianta vir na assembleia se o que for dito não será levado em consideração? A pessoa desiste, desanima. O que eu quero agora é mudar isso. É fazer uma gestão mais participativa, mais próxima do trabalhador de chão de fábrica mesmo. Sei que será um trabalho difícil e que levará algum tempo mas estou animado. Visitei algumas fábricas, conversei com os sapateiros e senti que ainda há interesse.
Para este ano, as negociações salariais nem começaram. Mas a pauta da categoria definida pelo sindicato é grande e com grande ambição. Entre os pedidos, estão um aumento de 25% e o pagamento de participação nos lucros de 220 horas. Em uma época de crise, não soa irreais estes pedidos?
Não. Claro que temos consciência das dificuldades da negociação, mas são pontos de partida que serão discutidos e acertados. Esse é o nosso ideal e vamos lutar para alcançá-lo.
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