Em meio à atmosfera cinza e muitas vezes estressante do trânsito, dois personagens coloridos se destacam nos semáforos de Franca. Entre os veículos que esperam o sinal abrir, é fácil avistar as grandes cabeças dos personagens de desenhos da Disney: o ursinho Pooh e o Tigrão. A dupla escolheu pontos da movimentada avenida Major Nicácio para pedir doações de dinheiro.
Tigrão e Pooh falam pouco. Abordam os motoristas sempre usando as máscaras e segurando uma plaquinha em formato de coração para pedir um trocado: “Me ajude por favor c/ 0,10 centavos”, é a frase de um dos lados. Do outro: “Obrigado”. Na outra mão, seguram uma caneca para colocar as moedas e notas que ganham.
A ação dos “bichinhos” desperta a atenção dos francanos, que se dividem entre aprovação e desconfiança, além da curiosidade de saber quem está por trás das fantasias.
A reportagem entrevistou a dupla. Descobriu que são duas mulheres, mãe e filha, de 36 e 18 anos. As duas preferiram não ser identificadas. “Temos vergonha”. Mas contaram um pouco de sua história e da ideia de ganhar as ruas vestidas de Tigrão e Pooh.
Moradoras do Jardim Paineiras, elas fazem isso há três meses, após terem ficado desempregadas. Segundo elas, é muito comum as pessoas perguntarem do que se trata a ação e se é algo ligado a instituições de caridade. “A gente fala que é para ajudar uma família, que no caso é a nossa. Dependo desse dinheiro para pagar contas e aluguel”, disse a mãe, que se veste de Tigrão. Ela tem uma filha que está empregada, mas o dinheiro não é suficiente para manter a casa, já que ela mora com quatro filhas.
Elas costumam ficar nos semáforos todos os dias entre as 8 da manhã e três da tarde. Enfrentam sol forte com as roupas dos personagens e um figurino que inclui também luvas de lã. “É bastante cansativo. Na mochila, a gente traz água para aguentar, mas fica bem quente dentro das fantasias, minha filha já até passou mal”. Mãe e filha preferiram não revelar onde se trocam antes de irem para os semáforos. Disseram apenas que vão a pé de casa para a avenida e transportam as fantasias para se trocarem lá.
As duas já tinham as fantasias, elas eram usadas no antigo emprego de animadoras de festas infantis. Mãe e filha acharam que a vestimenta chamaria atenção e adotaram o figurino. “Suspeitava que as pessoas fossem ficar curiosas, porque se eu visse isso no semáforo também ficaria”, disse a filha, que se veste de Pooh.
A ação realmente chama a atenção, principalmente das crianças. Algumas pessoas as parabenizam pela criatividade, mas a reação nem sempre é positiva. As duas afirmam que já foram xingadas. “Ficar no semáforo é uma coisa humilhante, mas ao mesmo tempo alegre, a gente tenta não dar bola para quem discrimina nós duas”, disse a mãe.
Muitos tentam descobrir quem são ‘os fantasiados’ e dão diversos palpites sobre suas identidades. “Eles nunca pedem água ou usam o banheiro, costumam ficar aqui quase todos os dias, às vezes revezam o ponto com um palhaço”, disse a recepcionista Danielly de Souza, 24. Ela trabalha em uma imobiliária que fica na esquina da Floriano Peixoto com a Major Nicácio, ponto usado pelas fantasiados.
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Vestida do personagem Tigrão, mulher ganha moeda de motoristas que atendeu seu pedido no semáforo da Major Nicácio
Outro
Para os motoristas, também há mistério. Alguns se incomodam e nem abrem os vidros dos carros, outros consideram que é “um trabalho artístico” e ajudam. “Faço questão de ajudar porque essas pessoas estão tentando fazer alguma coisa das migalhas que recebem”, disse a professora Lurdinha Coelho, 53.
O sapateiro desempregado Matheus Soares, 19, é uma exceção, pois já sabia um pouco da história dos personagens. Ele se veste de palhaço e reveza os cruzamentos da avenida com elas. “Já até vi as duas antes de se trocarem, mas não temos muito contato. A gente troca de lugar quando os motoristas se cansam de ver o mesmo personagem”, disse o jovem.
As duas mulheres querem que essa seja apenas uma opção provisória para ajudar no sustento da família. Afirmam que distribuem currículos, mas as empresas não retornam. “Se surgir alguma oportunidade de trabalho, a gente deve parar de ficar nos semáforos”, disse a jovem.
Sobre o valor arrecadado, dizem que cada uma consegue de R$ 15 e R$ 30 por dia. “A gente resolveu pedir 0,10 centavos porque acreditamos que se pedíssemos mais, as pessoas não dariam. Mas nem todos ajudam, mesmo que seja com pouco”, disse a mulher.
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