As coisas no Brasil, principalmente quando envolvem políticos, seguem uma lógica torta e surreal. Envolvidos em esquemas de pagamento de propina e desvio de verbas públicas, eles se consideram acima da lei com um argumento simplório: se não sabiam da forma como o dinheiro era captado pelas empresas que lhes fizeram doações, não podem ser julgados e condenados. Assim vem sendo feito desde quando o Brasil era uma república incipiente, no século XVIII. E continua desta forma até hoje, se considerarmos a defesa apresentada para defender o mandato de Dilma Rousseff (PT) e seu vice Michel Temer (PMDB) junto ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral).
Em documento de quase 50 páginas apresentado ontem ao TSE a defesa da presidente afirma que o PSDB faz “uso político da Justiça Eleitoral”, em referência à ação de autoria de tucanos no Tribunal que pede a impugnação da chapa Dilma-Temer, sob a alegação de que ambos tiveram campanhas financiadas por empresas investigadas pela operação Lava Jato. O documento faz referência a um argumento utilizado pelo governo desde o final de 2014, o de que o PSDB de Aécio Neves não se conforma com a derrota e força uma espécie de terceiro turno da eleição. “Na democracia, mais importante do que vencer as eleições é saber reconhecer a derrota imposta pelo voto popular”, afirma a defesa. Mas todo mundo sabe que não é nada disso: há provas robustas de ilegalidade e até o juiz Sérgio Moro, que comanda os processos da Lava Jato. já afirmou que dinheiro sujo vem financiando campanhas eleitorais em nosso País há muito tempo.
Porém, chama mais a atenção um dos pontos levantados pela defesa. Segundo o documento, mesmo que os recursos da campanha sejam oriundos de corrupção, o comitê financeiro não teria como sabê-lo. Segundo a defesa, se as empresas investigadas pela Operação Lava Jato que doaram recursos para a campanha obtiveram dinheiro de forma ilegal, a chapa que recebeu a doação não pode ser punida por isso. ‘Se o doador obteve recursos de forma ilícita, como alegam os autores, essa ilicitude não se projeta sobre o donatário’. É a mesma argumentação de sempre: ninguém sabe de nada, desconhece o assunto ou não tem nada com isso. O fato é que estatais, ministérios e autarquias foram usados para desviar dinheiro a partidos e esta ação, ilegal, deve ser apurada, julgada e condenada. O Brasil não pode mais sustentar a bandeira da corrupção que fez a fortuna de alguns em detrimento da maioria de sua população. Espera-se que o TSE também não caia na lábia de advogados pagos a peso de ouro para livrar corruptos das penas que lhes cabem.
email opiniao@comerciodafranca.com.br
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.