Escoltado de perto por policiais federais, o juiz mais odiado do país, Odilon de Oliveira, palestrou ontem à noite para uma plateia de juízes, promotores, advogados, estudantes, políticos e assinantes do Comércio da Franca. A corrupção que assola o país foi o tema do encontro. “O corrupto é genocida. Mata por atacado.”
Foi a primeira visita do juiz Odilon a Franca. Durante todos os seus passos na cidade, inclusive, na entrevista gravada na sede do GCN, ele foi vigiado por policiais federais. É assim há 18 anos. Por medidas de segurança, o número do efetivo que cuida de sua escolta é mantido em sigilo.
“As ameaças não afetam o meu trabalho. Entram em um ouvido e saem no outro. Aplico a sentença da mesma maneira. Mas, traz transtornos psicológicos, sim, é angustiante. Tem um quartel dentro de casa. Eu durmo com os policiais. Não posso nem ir à calçada sozinho”, disse o juiz.
Oito promotores de Justiça, entre eles, todos os membros do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), e quatro juízes acompanharam a palestra realizada no Teatro “Judas Iscariotes”.
Odilon de Oliveira iniciou sua apresentação apresentando dados sobre a corrupção. Ele estima que a roubalheira movimentou R$ 183 bilhões em 2014, valor que corresponde a 3,3% do PIB e 7,3% do orçamento do país. “A corrupção devasta e acaba com a credibilidade do país. O Brasil tem que enfrentar, não só a corrupção, mas o crime de natureza econômica, e retirar tudo o que está com o criminoso. Tem que atacar a espinha dorsal do bandido e confiscar os ativos ilícitos da corrupção.”
O juiz disse que é difícil superar os mecanismos de resistência para identificar corruptos e sonegadores e conseguir aumentar a apreensão de bens oriundos de atividades criminosas. “Difícil é saber quem é o laranja. Se descobrir, é confisco na certa. No Brasil, só não se usa laranja para ir ao motel.” Arrancou sorrisos da plateia.
Odilon afirmou que a própria lei em vigor e as penas desproporcionais são mecanismos de resistência, pois dificultam o trabalho da polícia, do Ministério Público e da Justiça. “O sistema penitenciário é, normalmente, podre. A corrupção é grande dentro do sistema. Há um sistema penal para o pobre e outro para o rico.”
Após fazer sua explanação, o juiz respondeu a perguntas da plateia. Afirmou ser totalmente contra a liberação das drogas, disse que a família é a base para a transformação da sociedade e afirmou ser favorável à decisão do Supremo Tribunal Federal que permitirá a prisão de condenados em segunda instância. “A decisão é louvável e vai renovar esperança da sociedade, dos novos juízes e promotores.”
Odilon contou que o maior desafio que enfrenta é a morosidade, a burocracia, da Justiça. “Para todos os lados que a gente olha, tem recurso.” Perguntado sobre o que falta para o ex-presidente Lula ser preso, ele disse que é impedido de opinar sobre processos em andamento, mas afirmou que a Operação Lava Jato deixará um grande legado. “Certeza absoluta que a Justiça está se transformando. Não vai escapar ninguém. O grande corrupto vai refletir, vai pensar no japonês (da Federal), no xadrez e nas algemas. A operação terá um efeito pedagógico, sem dúvida.”
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