Um retrato fiel da situação do Brasil


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No final do século XX e início do XXI, criou-se uma nova tendência no Brasil: a simples troca de um produto por outro mais novo. Com isso, oficinas de consertos das mais variadas, de calçados a eletrodomésticos, de roupas a aparelhos eletrônicos, aparentemente viveram o seu ocaso. As que resistiram, em razão de sua tradição, tornaram-se uma exceção numa sociedade de consumo onde as novidades, principalmente no campo da tecnologia, apresentavam uma sucessão impressionante de modelos que deixavam de ser tops em períodos bastante curtos. Como apontou reportagem do Comércio em sua edição de domingo, volta a crescer o interesse pelos consertos, principalmente diante da grave crise que impede novos investimentos para a maioria dos brasileiros. Hoje, consertar os defeitos torna-se bem mais em conta e o consumidor brasileiro — e o francano, em especial —- já percebeu isso.
 
Hoje é normal ajustar uma calça que esteja larga, consertar o salto do sapato ou a alça da bolsa arrebentada, trocar uma peça do liquidificador para que volte a funcionar ou customizar roupa usada para fazer uma nova peça. A palavra de ordem é reaproveitar. Como mostrou a reportagem, comerciantes que trabalham com reparos de produtos, como sapateiros, costureiras e eletricistas, já sentem os reflexos desta nova postura. Segundo os profissionais, nos últimos anos os consumidores se adaptaram a uma vida de consumo, menos consciente, e agora, com a crise econômica, estão se policiando e buscando alternativas para manter o padrão, mas gastando menos com isso. Num momento de crise, como o que o País vive na atualidade, este é um movimento natural, já que a retração na economia impede o investimento em produtos considerados supérfluos: se é possível consertar a um custo bem mais baixo, por que investir num novo gastando muito mais?
 
Até o produto campeão de trocas, o telefone celular, agora movimenta o mercado de reparos. Hoje, os comerciantes estão preparados para realizar consertos em todo o aparelho: antes, uma tela quebrada levava à compra de um novo telefone. Trata-se de uma postura que deveria ser mantida, mesmo que a economia retome os trilhos do crescimento, reativando a produção e reaquecendo o mercado de trabalho. Trata-se de uma questão simples, permitindo que se faça economia em pequenas coisas, permitindo que o excedente seja poupado para momentos difíceis que podem se repetir. É uma questão de sobrevivência, que afeta não apenas o consumidor mas também o prestador de serviço. Que todos nós adotemos esta prática, saudável principalmente para os nossos bolsos, bastante desfalcados nos últimos meses.
 
 
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