Nas paredes de seu apartamento, no Centro de Franca, uma pinacoteca multicor salta aos olhos de quem chega. Assinados por Maria Goret Chagas, os quadros revelam uma paixão evidente da autora. “As flores representam algo bonito, para mim. Ao mesmo tempo que aparentam fragilidade, revelam força. Surgem num jardim bem cuidado assim como em meio a pedras, por entre muros de concreto.”
Goret nasceu em 26 de julho de 1951, na cidade mineira de Delfinópolis. Terceira dos nove filhos do comerciante Alaíde Rodrigues Chagas com a dona de casa Divanilza Soares Chagas, veio ao mundo sem os movimentos dos membros. Por meio de fato extraordinário, ao qual ela chama milagre, passou a andar aos 5 anos de idade e nunca deixou que a deficiência física fosse uma limitação de vida.
“Vim para Franca quando tinha 10 anos de idade. Aqui, me formei em Letras pela Faculdade de Filosofia, História, Ciências e Letras de Franca, em 1973 e, assim que me graduei, iniciei o curso de Educação Artística na Unifran. Além disso, fiz especialização em semiótica na Barão de Mauá, de Ribeirão Preto. Quando concluí, iniciei minha trajetória como professora, que durou 28 anos.”
Após se aposentar, Goret não ficou parada. Ingressou na Associação dos Pintores com a Boca e os Pés, da Suíça; tornou-se palestrante motivacional; ministradora de oficinas; escreveu três livros além de antologias e artigos para revistas; assinou exposições pelo país e recebeu diversos troféus, medalhas e menções honrosas.
“Recentemente, fui convidada pela diretoria da Abrasci (Academia Brasileira de Ciências, Artes, História e Literatura) para incluir minha biografia no livro Brasil de A a Z - A grandiosidade dos Estados, a força do interior e a beleza do litoral, editado pelo Instituto Biográfico do Brasil”, contou. O título será distribuído em faculdades, universidades, bibliotecas, embaixadas e consulados. Além disso, ela se prepara para ver relançado, no dia 10 de março na Escola KnowHow Brazil o livro Dicas de Mulheres Inspiradoras, do qual participa. O título reúne histórias de 38 mulheres que encontraram seus caminhos em diversas atividades. Relatos como os de Luiza Helena Trajano, presidente do Magazine Luiza; de Chieko Aoki, fundadora da rede Blue Tree Hotels e da própria Goret estão registrados em primeira pessoa na publicação.
Conheça um pouco sobre a trajetória de Goret.
Você conta que permaneceu sem os movimentos dos membros nos primeiros anos de sua infância. Como conseguiu recuperar os movimentos das pernas?
Até os 5 anos, não mexia os braços e não andava. Tinha o movimento da cabeça e da coluna, apenas. Fazia tratamento em São Paulo e os médicos diziam que seria necessário 13 cirurgias para ter algum resultado. Acontece que dias antes da Festa do Divino Espírito Santo, que acontece até hoje em Delfinópolis, pus na cabeça que iria de qualquer jeito. Disse, com aquela idade, que eu precisava ir à festa e que ou eu andaria ou iria morrer. Tive febre durante os três dias que antecederam o evento. No terceiro dia, fiz birra para ir à procissão e fui nos braços da Auxiliadora, minha babá. No meio do caminho, dei um grito muito forte e ela se assustou, me soltando. Então, comecei a andar. Voltei para casa e minha família estava na cozinha; fui até lá andando. Eram passos de uma criança que começa a andar, não perfeitos, mas eu estava andando. Me lembro da surpresa, do susto da minha mãe. Voltamos a São Paulo e uma junta médica nos disse que nada poderia explicar o que aconteceu. Que era um fato extraordinário. Eu digo que foi milagre.
E após esse episódio, o que mudou em sua rotina?
Minha brincadeira predileta passou a ser ‘rabiscar’ o papel. Fazia isso com os pés, sem utilizar a boca nessa época. Tive tios e tias com vocações artísticas que me deram a oportunidade de acompanhar alguma coisa. Um era escultor, a outra pintora... Então, acredito que, de alguma forma, o dom artístico venha de família.
E esses desenhos, você os fazia por instinto ou teve alguma orientação profissional para adequar a atividade a sua condição física?
Nessa época, não. Meu pai tinha uma loja em Delfinópolis e, como eu não andava, passava o dia com ele, em cima do balcão observando o movimento. Meu pai me dava um papel qualquer e eu ficava desenhando, lá em cima, com os pés. Fui aprender a utilizar a boca quando entrei na escola.
Como foi para você na escola; que estrutura era oferecida para atender suas necessidades?
A estrutura era a boa vontade da minha professora, Sílvia. Ela tinha criatividade e intuição para lidar comigo. Para facilitar a minha adaptação, ela me sugeriu escrever com a boca e, a seu modo, adequou a carteira numa altura que me favorecesse. Colocava um banquinho aqui, puxava outra carteira de lá e a gente ia seguindo. Não tínhamos a tecnologia que se tem hoje, mas tínhamos uma professora com muito amor à sua profissão e com ideia de inclusão.
Na infância, é comum as crianças não entenderem ou lidarem muito bem com as diferenças. Você teve problemas com seus colegas de classe?
Foi a única época em que sofri o que hoje chamam de bullying. Por eu não me mexer, algumas crianças me batiam, beliscavam, mordiam e saiam correndo. Eu chorava e contava para minha mãe. Um dia ela me disse: você não tem dentes? Isso despertou algo em mim que me acompanha até hoje. É uma metáfora que trouxe comigo, que nunca me deixou em posição de vítima. Na vida adulta, tive as dificuldades que toda pessoa enfrenta no mercado de trabalho, independentemente de deficiência. Agora, se houve algum episódio de preconceito, não percebi. A intenção ficou guardada para a própria pessoa, pois não me atingiu.
E quando foi que sua brincadeira preferida na infância se tornou uma profissão?
Na adolescência, com meus 16 anos, passei a levar meu dom mais a sério e procurei por cursos. Todos esses cursos rápidos, que entidades e instituições oferecem em Franca, eu me metia. Passei pela fase de pintura em tecido, que foi febre em certa época, e comecei a ganhar dinheiro. Cheguei a montar quartos de bebês com cortinas, colchas, fraldas, toalhas e mimos pintados. Foi o que começou a impulsionar minha atividade artística.
Como as telas surgiram em sua vida?
Por meio dos cursos. Me matriculei em um de pintura a óleo e fui me interessando. Daí por diante, foram vários os cursos e fui me apaixonando pela cultura em telas e pelas técnicas, abandonando os tecidos. Isso porque vi a oportunidade, nas telas, de usar minha criatividade, o livre arbítrio de criar. Nos tecidos, a pintura era por encomenda, o que me limitava. Nas telas, não. Foi assim também que conheci a aquarela, que hoje mais me agrada trabalhar.
Você é filiada à Associação dos Pintores com a Boca e os Pés, da Suíça. Como te descobriram em Franca e que papel tiveram em sua trajetória?
Diria que um papel fundamental na minha vida artística. Nosso primeiro contato aconteceu da seguinte forma: a mãe do José Henrique Taveira Breda, hoje um artista que também pinta com a boca, me procurou na época em que ele frequentava a Apae (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais) para ajudá-lo a aprender a pintar com a boca. Um ano depois que iniciamos as aulas, a própria Apae, que conhecia a Associação, entrou em contato com os representantes da mesma no Brasil e contou a história dele. Eles vieram a Franca, isso por volta de 1995, se não me engano, para conhecê-lo, e o convidaram para integrar ao grupo. Souberam de mim e me chamaram também, mas na oportunidade eu ministrava 24 aulas por semana e não pude aceitar. Em 2005, depois de me aposentar, me incluíram. A partir daí, passei a produzir mensalmente para a Associação, a receber por isso e a ter meu trabalho divulgado em 70 países. Isso me abriu muitas portas.
Embora seu traço mais prolífero esteja nas tintas, você também escreve...
É algo que adoro. Tenho três livros publicados: Realize tudo o que seu coração deseja (2009), A estrela de uma ponta (2013)- nas versões à tinta e em braile - e Era uma vez uma garota de olhos encantados (2014). O Realize está em sua segunda edição e ficou entre os três finalistas do Prêmio Sentidos, do Memorial da América Latina em São Paulo, concorrendo com 1.083 inscritos de todo o Brasil. Além desses, tenho participações em antologias, crônica e artigos publicados em espanhol, inglês e alemão. Atualmente coordeno e produzo artigos em livros sobre liderança, empreendedorismo e textos corporativos pela Editora Leader. No próximo dia 10 de março, relançaremos em Franca o Dicas de Mulheres Inspiradoras e, entre o fim de abril e o início de maio, lançaremos o Motivação - a chave para o sucesso pessoal e profissional. Também produzo artigos para a revista digital Fênix, de Portugal.
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