Esperados para ontem, os cortes que o Planalto pretende implantar nos gastos correntes, na tentativa de reverter o rombo crescente nas contas públicas, foram ‘empurrados’ para março. O anúncio foi adiado e mantém-se o suspense sobre as reais respostas que o governo federal dará para uma solução à recessão que atinge o Brasil desde o ano passado e cujo buraco aumenta a cada mês. A crise institucional, que joga num mesmo bolo o impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT), o processo de cassação do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), a recriação de um novo imposto do cheque e a reforma da Previdência, entre várias outras matérias ainda pendentes, deixa o horizonte nublado, sem qualquer perspectiva de mudança no cenário atual.
As taxas de juros atingem níveis superiores a 1999, enquanto a inflação começa um movimento que pode manter o mesmo nível do fechamento em 2014, em dois dígitos e bem acima da meta de 6,5%. O desemprego, por causa na retração da produção, continua crescendo e hoje atinge os setores de serviços e de varejo, que não apresentavam déficit há muito tempo. O dólar continua valorizado e todo este panorama vem pressionando os preços para cima, reduzindo o poder de compra do trabalhador, que se vê obrigado a buscar alternativas capazes de manter pelo menos uma mínima condição de vida digna. Com a depressão batendo às portas, o Planalto resolveu adiar uma medida importante (o corte de gastos) que poderia aliviar pelo menos um pouco a situação do setor produtivo brasileiro que até agora vem arcando com o ônus do descontrole da política econômica dos últimos anos e da corrupção que desviou bilhões de reais que poderiam estar fazendo a diferença nas contas públicas.
O governo federal preferiu esperar para tentar aliviar os cortes nos seus gastos. Do contrário, já teria feito uma verdadeira reengenharia no serviço público, enxugando os cargos comissionados e reduzindo o tamanho da máquina administrativa. Mesmo assim, não há ainda a garantia de que o Congresso Nacional vá cerrar fileiras com o Planalto e aprovar a volta da CPMF e uma reforma previdenciária que reduza ainda mais os direitos trabalhistas que foram conseguidos ao longo de nossa história democrática. O governo não pode esperar da mesma forma que o Brasil não pode depender de uma série de fatores positivos para a aprovação de medidas que ainda não são garantia da retomada do crescimento e de controle das contas públicas. Enquanto não houver uma ação efetiva no sentido de implementar todas as mudanças necessárias, o nosso País vai continuar à mercê dos números negativos que assombram trabalhadores e empresários.
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