Dois dias depois de tomar conhecimento de detalhes do plano do governo Estadual de instalar mais duas praças de pedágios na região de Franca, o deputado Roberto Engler (PSDB) recebeu o Comércio da Franca em seu escritório na cidade.
Ácido como poucas vezes se viu, Engler fez duras críticas à decisão do governo e se mostrou muito decepcionado com a postura do governador Geraldo Alckmin (PSDB), de quem ele reclama de ignorar seus pedidos de audiência.
Engler também falou sobre o racha do PSDB em Franca, criticou o atual prefeito Alexandre Ferreira (PSDB) e disse dirigir a cidade sempre foi um sonho, mas que está fora da disputa nestas eleições.
Como o senhor viu a decisão do governo do Estado de instalar mais duas praças de pedágios na região de Franca?
Na audiência que houve na última segunda, em Araraquara, e em uma carta que protocolei junto à secretaria do governador na terça, me posicionei. Sempre fui favorável à política de concessão de rodovias. Com as concessões, vieram os pedágios. Não sou contra a instalação deles, desde que haja a contrapartida em investimentos de melhorias. Vejo a indicação de dois novos pedágios para a nossa região como uma decisão profundamente injusta. O chamado Lote C, que abrange as rodovias que vão de Rifaina, atravessa o Estado e chega ao Sul, em uma extensão de mais de 1 mil quilômetros, tem investimentos previstos da ordem de R$ 4,86 bilhões. Só que esses investimentos serão feitos em outras regiões. Nossas rodovias não terão um centavo de investimentos! Estamos sendo convidados apenas para pagar a conta. É flagrante a injustiça que o Estado está cometendo.
O senhor chegou a fazer propaganda de que as rodovias não teriam pedágios. Como o senhor se sente com essa decisão do governo estadual?
Sempre fiz eco às palavras do governador. Foi assim no governo Mário Covas, no primeiro mandato do Alckmin, no governo do Serra e agora novamente com o Alckmin. Sempre que cada um deles afirmava alguma coisa de interesse da população eu levava essa informação à região. Esse é meu papel como deputado. O governador falou diversas vezes para mim e em eventos públicos que não haveria pedágio. Fiz eco à palavra dele. Quando tomei conhecimento de que seriam instalados duas os pedágios na região, sem nenhum investimento, tive uma profunda decepção. Estou lutando para reverter isso.
Mas quando o senhor tomou conhecimento dessa decisão do governo?
Eu já vinha ouvindo algumas conversas a este respeito no final do ano passado. Mandei um ofício ao governador, no dia 15 de dezembro, cobrando uma resposta. Mas não houve retorno. Na audiência de Araraquara conheci os detalhes do projeto. Não foram realizadas reuniões prévias para que eu pudesse me posicionar. Não fui informado. Sequer me responderam. Na terça-feira, protocolei uma nova carta e espero que agora eu seja recebido e tenha um pouco mais de atenção. Quero explicar ao governador pessoalmente porque não se deve colocar pedágios em nossa região. Os pedágios devem estar ligados a investimentos. Se não, não tem que haver pedágios. Estou tentando convencer o governador de que está sendo praticada uma injustiça contra a nossa região.
Na última segunda, o senhor disse que “caiu do cavalo” ao acreditar na palavra do governador. Como está a relação de vocês depois do episódio dos pedágios? Como o senhor se sente tendo seus pedidos de audiências ignorados?
É angustiante e é por isso que quero tanto uma audiência pessoal com o governador. Quero entender o porquê de ele não me responder. O termo “cair do cavalo” está correto. Sempre dei crédito à palavra de um governador. Sempre deu certo. E, neste instante, saiu um ponto fora da curva. De repente, é anunciado algo que vai contra a palavra dada pelo governador. Eu cai do cavalo. Agora eu acho que, por todo meu histórico de apoio ao governo do Estado, mereço uma satisfação. Mereço ser ouvido.
O senhor foi duramente criticado por conta da decisão do governo. Já calculou o desgaste para a sua imagem com essa decisão?
Me preocupo muito mais com os votos do passado do que com os do futuro. Já fui eleito. Obtive uma votação histórica com 122 mil votos. Devo à população e me penitencio por ter confiado na palavra do governador. Se por ventura sobrar alguma crítica para mim, eu a aceito. Tenho a convicção de que estou me colocando ao lado da população. A população tem protestado e tem meu apoio. Só não participei para que ninguém pensasse que seria um oportunismo político meu. Mas os apoio. E acho importante essas manifestações para que possamos reverter a decisão do governo. Neste instante, quanto mais lenha na fogueira jogarmos, isso, sim, leva os governantes a repensarem suas decisões.
Já houve alguma resposta sobre o ofício enviado pelo senhor na terça?
Ainda não. Mas espero muito que o governador me responda. Estou ansioso para que ele me chame. Mereço essa atenção. Tenho 25 anos de Assembleia. Sete mandatos. Fui dez anos o relator do orçamento do governo. Dois anos líder do PSDB na Assembleia. O Alckmin me deve uma explicação. Sempre o apoiei. Se ele chegou aonde chegou, é porque contou com o meu apoio quando ainda era um candidato do interior. Eu o ajudei a dar o primeiro passo na sua brilhante trajetória política. Acredito que ele vá me responder, sim, e que irá me receber para discutirmos essa questão pessoalmente.
Estamos no começo de um ano eleitoral. Já dá para saber quem pode ter o seu apoio na disputa pela prefeitura?
Já defini, sim. Meu apoio será do candidato que estiver melhor colocado nas pesquisas, qualquer que seja ele. Em primeiro lugar, por causa da cidade. A cidade não pode perder um prefeito que tenha ligações com o governo estadual. Em segundo lugar, porque defendo o PSDB. E em terceiro, porque o próprio governador considera Franca uma cidade importante e que precisa estar alinhada ao PSDB. Então, me sinto na obrigação de apoiar na convenção aquele que tiver melhores chances de vencer. Na campanha, será diferente. Vou participar dependendo do convite, porque não costumo ir a festas para as quais não tenha sido convidado. Se for convidado, estarei no palanque defendendo o candidato do PSDB.
O senhor falou sobre as prévias e a convenção. A candidatura à reeleição de Alexandre Ferreira ainda não está certa dentro do partido?
Não. A escolha do candidato do PSDB à Prefeitura de Franca será feita em uma convenção ainda sem data marcada.
O que percebemos é uma disputa se formando entre o ex-prefeito Sidnei Rocha e o atual, Alexandre Ferreira. Qual o clima dentro do partido?
É esse mesmo. De disputa. E acho bom ter essa disputa. Aliás, estava até um pouco preocupado se o Sidnei resolvesse não ser candidato, seria muito triste isso para todos nós. Mas ele assumindo a candidatura e o Alexandre também, acho boa essa disputa. Eu, digamos assim, tenho uma fatia do diretório. São pessoas ligadas a mim e essas pessoas vão ficar ao lado daquele que estiver melhor nas pesquisas que iremos fazer quando estivermos mais próximos da eleição.
O melhor colocado terá seu apoio ainda que ele seja Alexandre Ferreira, para o qual o senhor não fez campanha em 2012 e que não participou da sua campanha em 2014?
Na convenção, sim. Na campanha é uma outra questão. Na convenção, o que estiver melhor na pesquisa, eu e os meus soldados estaremos ao lado dele. Na campanha, vai depender de quem será o candidato e se haverá convite para eu participar.
No mês passado, Sidnei Rocha fez duras crítica à postura política do ex-pupilo Alexandre. Disse que ele era um “elefante em uma loja de Cristais”. Qual a sua avaliação a respeito?
Esse jeito do Alexandre fazer política não é o meu. Não concordo. Percebo que o atual prefeito, infelizmente, criou muitas animosidades, com os comerciantes do Centro, com a Polícia Militar, com os vereadores, com os promotores de Justiça e até com a imprensa. Acho que esse não é o jeito correto de fazer política. O prefeito deve ser aquele que consegue conversar com todos, ouvir todo mundo. E não aquele que consegue criar tantas ranhuras como o Alexandre fez. As pessoas colhem o que plantam. Então, vejamos o que vai acontecer nas pesquisas.
E qual sua avaliação sobre o governo Alexandre Ferreira?
Assim você me aperta. (para uns segundos para pensar). Olha, também não gosto do jeito dele governar a cidade. Não gosto porque, pelos alaridos, pelo que a gente ouve, as reclamações são diversas e de várias formas e todas têm o mesmo fundamento: o prefeito Alexandre Ferreira tem dificuldade de diálogo com pessoas. Ele faz aquilo que pensa sem ouvir o que as pessoas pensam a respeito do que ele está fazendo.
Isso não se deve à falta de traquejo e experiência política? O prefeito já se aconselhou politicamente com o senhor, que é um político experiente?
(risos) Me lembro de uma experiência que traduz muito o jeito do Alexandre. Quando ele cortou vagas de estacionamento no Centro e criou aquela confusão, me atrevi a ligar para ele e falar que o jeito como ele estava fazendo as coisas não era o melhor, para pedir para ele suspender a determinação e discutir a com os comerciantes, achar um caminho mais palatável. Não houve ressonância. Foi a única vez que tentei. Ele nunca me procurou. Nunca me perguntou nada. Faz parte da personalidade dele. Ele faz o que ele pensa e não procura ouvir as pessoas.
Esse é o maior erro do prefeito Alexandre Ferreira?
Penso que sim. Considero ele um prefeito trabalhador, rápido nas suas decisões. Ele tem virtudes, mas acho que ele não tem a virtude de ouvir, a sensibilidade de escutar o povo, os segmentos da sociedade para tomar suas decisões.
Sua candidatura à Prefeitura de Franca está descartada?
Completamente. Quem teve 122.544 votos para deputado, de pessoas que me escolheram para representá-las, não pode decepcionar essas pessoas. Devo uma satisfação a todas. Nesta eleição, minha participação como candidato está descartada.
O senhor foi duas vezes candidato a prefeito de Franca e saiu derrotado nas duas ocasiões. Ainda alimenta o sonho de ser prefeito de Franca?
(Engler respira fundo e pensa alguns segundos) Já tive esse sonho. Acho até que meu perfil é muito mais do Executivo do que do Legislativo. Sou muito mais de execução. Acho que a experiência de ser prefeito seria maravilhosa. Seria difícil, mas enfrentaria esse desafio. Mas agora, que como deputado tenho conseguido resultados maravilhosos e acho que tenho sido muito útil, estou fora da disputa. Mas daqui a cinco anos, quem sabe. Temos que esperar e ver lá frente em que lugar serei mais útil.
O senhor está em seu sétimo mandato como deputado estadual. Ainda tem fôlego para uma nova disputa em 2018?
Puxa vida! Ainda tenho três anos para terminar esse mandato e você já está querendo saber do futuro. Olha, essa é uma questão que não depende de mim. Não faço a minha vontade. Sou um instrumento a serviço da população. A pergunta a se fazer é, se daqui a três anos, a população ainda acreditará em mim? Ela achará que eu ainda sou um bom deputado para Franca? Minha candidatura dependerá dessas respostas.
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