O tríplex


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Para um tio que tive, ‘gente que enrica do dia para a noite tem certeza de impunidade, tanta certeza que cutuca os outros a também enricar. Se a pessoa não topa, é cagão. Eu continuo um. Meu pai e meu avô também foram.’ Tinha orgulho do trabalho duro que, herdado do pai, exerceu até a aposentadoria. Infelizmente, gente como esse tio, tem pouca, hoje. A maioria anda pressionada a rever conceitos. No silêncio das noites, põe de um lado as contas a pagar e de outro, o minguado dinheiro . Mira nos olhos tristes da mulher e dos filhos, e se cobra: a continuar fazendo ‘só’ o que faz,permanecerá objeto do desdém de amigos que se tornaram ‘mais bem postos na vida’. 
 
Pensa, então, pela bilionésima vez, que mais cedo ou tarde terá que aposentar a decência, perder a vergonha, abrir mão da integridade. A raiva toma conta de você e lhe cobra atitude ‘de homem’. A última barreira geralmente cai quando volta a pensar no ‘bem da família’. 
 
Esta semana, o Brasil inteiro assistiu, no Jornal Nacional, o promotor José Carlos Blat falar sobre a Bancoop, cooperativa do Sindicatos dos Bancários de São Paulo. ‘Tornou-se organização criminosa, balcão de negócios de onde foram desviados quase R$ 100 milhões para abastecer campanhas político-partidárias, dar estrutura a empresas fantasmas e beneficiar pessoas que estavam de alguma forma atreladas ao Partido dos Trabalhadores’, disse ele. Num desses prédios, erguido em praia das mais valorizadas do Guarujá, um dos apartamentos é de Vaccari Netto, ex-tesoureiro do PT e ex-presidente da cooperativa, hoje preso pela Lava Jato. Outro, um tríplex, segundo funcionários do edifício, ‘é de ‘Lula.’ 
 
Advogados do ex-presidente da República sambam para explicar o  inexplicável— Marisa Letícia, mulher do ex-presidente e um dos filhos do casal, Fábio, supervisionaram reforma feita no apê por empresa contratada pela OAS, empreiteira investigada pela Lava Jato. Funcionários do condomínio contaram que o próprio Lula foi lá ver o ‘elevador implantado no tríplex’. Escada é coisa de pobre! 
 
Lula, Vaccari e políticos de todos os partidos políticos não estão sozinhos. Nunca estiveram. Há 516 anos este país é berço de gente que mistura o público com o privado. Está em nossa genética histórica. Têm querem exercitar poder e ganhar muito com isso, e a qualquer custo. Se estão fora, querem entrar. Dentro, não querem deixar. A apoiá-los, o povo, com sua preguiça e falta de informação. 
 
Será que em sã consciência, alguém acha que Lula tem como patrimônio apenas apartamentos ‘baratos’ onde mora em São Bernardo do Campo? Por força dessa dúvida, não se pode inferir que Fernando Henrique, Fernando Collor, José Sarney, Itamar Franco e todos os outros presidentes deste país do jeitinho, da desfaçatez, da mentira, da imoralidade, da injustiça, da insegurança também deveriam ser investigados em suas declarações de só algumas coisinhas aqui e ali? Pior é saber que mesmo reclamando, o brasileiro médio, cândido e dizendo-se esperto, dá valor a enriquecimento a qualquer custo. A sabedoria popular não deixa dúvida: ‘deixe de ser besta e pegue tudo para você’. 
 
Desejo a Moros, Janots, Barbosas, Wesleys, Corrêias Borges, força e compromisso com o suor. Que não esmoreçam, apesar da ausência de estrutura e recursos nulos que lhes dão. Espero também que mais magistrados saiam  da posição de conforto e se contraponham ao arcabouço ‘legal’ criado por políticos corruptos. Aliás, que país pode-se ter com bandidos legislando?
 
PS: Quando eu terminava este texto, chegou-me a informação que o promotor de Justiça de São Paulo, Cássio Conserino, intimou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e sua mulher Marisa Letícia para depor em investigação sobre (o) tríplex do Guarujá. Será dia 17 de fevereiro no Fórum da Barra Funda. E será a primeira vez que Lula e Marisa são depor como investigados. 
 
 
Luiz Neto
jornalista, editor de Opinião - luizneto@comerciodafranca.com.br
 

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