Em meio a fezes de pombos, urina humana e prédio depredado, passageiros aguardam a chegada da única linha de ônibus que desembarca na rodoviária local. Contornado por lama, mato alto, animais peçonhentos, postes sem luz e muro esburacado, o campo de futebol da cidade tem servido de moradia e banheiro para sem tetos e ninhada de gato.
Vizinha a um terreno utilizado como lixão a céu aberto, a quadra poliesportiva recebe crianças e a comunidade em um chão coberto de lama, teto com goteiras, além de banheiro ocupado por inservíveis de todo tipo, que produzem um mau cheiro difícil de descrever. Outro mau cheiro, esse relatado, foi o da queima de material no cemitério local. De acordo com moradores, quase toda a semana, uma fumaça vinda de lá empesteia os arredores.
Os cenários narrados são encontrados na cidade mineira de Capetinga. Após receber diversos chamados da população, o Comércio passou o último dia 14 na cidade, observando os pontos citados e conversando com uma comunidade insatisfeita e com medo de se pronunciar. “Não posso dar meu nome. A cidade é pequena e a gente precisa da Prefeitura para quase tudo. Se já está difícil assim, imagina se pegarem no nosso pé”, resumiu um morador.
A rodoviária
Construída entre 1989 e 1993, a rodoviária municipal parece ter sido completamente abandonada há cerca de três anos, segundo a população. Atualmente, as paredes têm marca de infiltração; do chão ao alto, incluindo bancos e corrimão, há fezes de pombos; os banheiros estão pichados e com válvulas de descargas defeituosas; o quadro de energia é um emaranhado exposto de fios em um cômodo de despejo que fede a mofo e, para completar o cenário, os estabelecimentos que ali funcionavam foram abandonados, segundo a população. De lanchonete a guichê de passagem.
“Sem falar nas portas que não fecham. Aí, o pessoal aproveita para usar drogas e ficar bêbado”, disse um morador ao mostrar um cômodo com garrafas de pingas esvaziadas, uma colher e urina pelo chão. “É uma pena a rodoviária estar nesta situação. Ela é registrada nos órgãos competentes, como o DER, e poderia receber diversas linhas, até interestaduais, se estivesse com boa estrutura”, afirmou um ex-prefeito, responsável pela construção do local, Roberto Taylor Vieira.
O campo de futebol
O espaço é grande e, segundo a Prefeitura, utilizado como centro de treinamento de futebol. A afirmação causou certo espanto tendo em vista as condições do local. Se por um lado, o campo se apresentava com condições - ainda que com mato - de ser usado, seu entorno era temerário.
Os buracos dos muros eram camuflados pelo alto mato do que deveria ser a calçada, do lado de fora; um cômodo abandonado, que pode ter sido um vestiário em algum momento, teve suas três divisórias “reutilizadas”: a primeira ocupada por uma família de gatos, a segunda por fezes humanas e a terceira em um quarto para morador de rua.
“Não sei como as crianças treinam aí. Desse mato saiu uma coral esta semana. Meu vizinho usou o carro para passar por cima e matar”, afirmou uma moradora da vizinhança. “À noite, falta também iluminação. A Prefeitura fala que vai tomar conta daqui, mas fica só na promessa.”
A quadra poliesportiva
A quadra poliesportiva da cidade é outro bem público mal cuidado e que a população utiliza. Localizado próximo a um lixão a céu aberto, o espaço recebe diariamente crianças, jovens e adultos para prática de esportes e ensaio de escola de samba. No entanto, até a manutenção mais simples, como limpeza, é feita pelos próprios frequentadores, segundo eles.
“Quando vamos usar, a gente mesmo traz as vassouras, varre e seca. Sem contar que a maioria das luzes está queimada”, disse um morador da cidade. Além disso, o banheiro - que não possui mais privadas nem outro utensílio em funcionamento - encontra-se ocupado por inservíveis, que vão de madeira queimada a roupas velhas, garrafas e todo tipo de lixo.
“Se fosse só no banheiro, onde não chove, estava bom. Mas ali no lixão tem um monte de coisa que pode acumular água e gerar mosquito da dengue. Hoje não tem, porque o prefeito soube que vocês iam vir e passou com a máquina aqui ontem, empurrando tudo pela ribanceira”, afirmou uma moradora. Na semana anterior, um membro da equipe de reportagem esteve no local e constatou, inclusive com fotos, o amontoado de lixo citado.
O cemitério
Embora não tenha presenciado a fumaça resultante da queima de materiais no cemitério da cidade, a reportagem conseguiu confirmar a informação com uma fonte ligada à Prefeitura.
Segundo o informado, materiais como restos de urnas funerárias, que não podem ser descartados com o lixo comum, são incinerados no próprio cemitério. A prática, no entanto, é irregular.
“Assim, a destinação dessas urnas não está ambientalmente adequada”, disse, via e-mail, a gestora ambiental da Secretaria Estadual de Meio Ambiente de Minas Gerais, Natalia Silva. “Essas urnas podem ser classificadas como resíduos de saúde, no caso de apresentarem restos humanos ou patogenicidade, ou seja, são classificadas como resíduos perigosos, conforme ABNT NBR 10004/2004, e necessitam de destinação adequada. A Prefeitura pode, por exemplo, buscar empresas regularizadas para receber este tipo de resíduo”, concluiu.
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