Wilson ainda não me ensinou por completo o que é o amor. Em 1992, quando meus pulmões arderam intensamente, foi a primeira vez que recebi uma dose de seu antídoto que até hoje tem me livrado do veneno das coisas carnais, materiais e subversivas deste mundo. Desde então, meu avô me oferece um motivo a mais para amá-lo. E por isso que continuo com meu funil perfurado no coração, pois dia após dia, meu avô faz questão de abastecer meu peito, e insaciavelmente, no dia seguinte há mais espaço esperando por doses de seu afeto. Essa é minha maior alegria e também minha maior dor.
Meu avô é sensacional porque amarrou duas cordas no alto do rancho, e com mais um pedaço de madeira ele fez um balanço para mim. Meu avô é maravilhoso porque, gentilmente, planta mudas de laranja lima e, pacientemente espera os galhos crescerem até que as flores brancas e cheirosas transformem-se em laranjas saborosas de chupar, e assim usufrui da melhor forma da terra, do gosto da fruta, e da saciedade da alma. Meu avô é magnífico porque sabe cantar, porque toca violão, porque fazia parte do teatro na década de 40. Meu avô é um cavalheiro admirável porque laçou minha avó nas vésperas de um casamento com outro homem, e foi quando ela largou tudo pra construir uma nova história com ele. Meu avô é único porque durante muito tempo foi motorista de ônibus, e quando um bichinho de pelúcia sobrava no fim da noite, ele presenteava carinhosamente meu irmão.
Histórias de amor são tão clichês quanto amores realmente tristes. Meu avô me doou tantas doses de seu afeto que quero constantemente viver, crescer e amar mais ao seu lado. Porém, tenho um medo quase maior que o mundo que nossas memórias cessem, que meu avô parta e que não tenha mais o “nós” e apenas o “eu” dobrado em saudade. Meus braços cercam seu corpo na tentativa de dizer: “Por favor, vô, viva para sempre!”, e é nesse momento que ele faz questão de abraçar meus braços e me doar um pouco mais de seu amor.