Com 70 anos de idade, boa parte deles dedicados ao voluntariado, a professora aposentada Maria Dorotéa de Sousa Russo despediu-se, na semana passada, da presidência do Centro de Voluntários da Saúde de Franca, ONG que há quase 15 anos realiza trabalhos diversos no Complexo Santa Casa de Franca, especialmente no Hospital do Câncer. Com brilho no olhar, Dorotéa afirma que o desejo de ajudar o próximo e ser voluntária nasceu com ela e integra o DNA da família. Para ela, o bem estar dos pacientes é motivo de satisfação e felicidade.
Natural de São Tomas de Aquino (MG), Dorotéa, como é conhecida, mudou-se para Franca com apenas 11 anos, onde permaneceu até se formar. Casada e mãe de três filhos, Dorotéa viveu em várias cidades, retornando para Franca em 1981. Antes disso, foi voluntária na Apae (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais) de Jaboticabal e no Vale da Ribeira, região pobre localizada no sul do Estado de São Paulo, e no leste do Estado do Paraná, onde também ajudava famílias carentes.
Em 2001, junto com outras poucas voluntárias, começou a participar de reuniões para embasar a fundação do Centro de Voluntários da Saúde de Franca, que nasceu em agosto daquele mesmo ano, meses antes da inauguração do Hospital do Câncer da cidade, que ocorreu em janeiro de 2002. De lá para cá, o grupo cresceu e hoje são 450 voluntários, grande parte formada por mulheres e aposentados.
De segunda a sexta-feira, das 8 às 17 horas, voluntários doam seu tempo, normalmente duas horas por semana, e recepcionam os pacientes, além de oferecer lanches, orações e organizar oficinas de próteses, perucas e produtos que são comercializados no grande bazar, uma das principais fontes de renda da ONG.
Deixando a presidência pela segunda vez (ela também ocupou o cargo entre 2004 e 2005), Dorotéa falou ao Comércio sobre os desafios de comandar uma das entidades de voluntariado mais respeitadas e organizadas de Franca.
Muitas ONGs relatam que é difícil ter o comprometimento das pessoas quando se trata de voluntariado e a Voluntários da Saúde consegue, mantendo um cronograma bem organizado, funcionar sem problemas há quase 15 anos. Qual o segredo?
Quem desejar ser voluntário se inscreve e eles são convocados para passar por um processo minucioso psicológico e motivacional para que, somente depois, ele comece esse trabalho. A nossa palavra é comprometimento, por isso realizamos um trabalho de preparação antes que eles comecem. Sabemos da importância e do poder do tempo de cada um. Prestamos um serviço muito gratificante e isso é o que motiva nossos voluntários.
Qual foi o seu maior desafio, então como presidente, nessa última gestão?
Quando assumi, no ano passado, estávamos com o estoque baixo de produtos no almoxarifado e me preocupei. Procurei apoio da população e consegui reverter esse quadro. O câncer não escolhe idade, cor, religião ou classe social. Ninguém está livre e trata-se de uma doença que, infelizmente, tem o poder de entristecer demais o doente, assim como a sua família, e mostrar que essa realidade pode ser diferente é uma das nossas funções. Buscamos agir em todos os campos possíveis, oferecendo conforto, carinho e compreensão. Acredito que, por conseguir mostrar para a população que qualquer pessoa está suscetível a essa triste doença, conseguimos melhorar a situação e crescemos bastante. Somente no ano passado, realizamos a doação de dezenas de perucas, próteses de mama sob medida, cestas básicas, frutas, verduras e legumes, suplementos, pacotes de bolachas, fraldas, leite, brinquedos para as crianças, além de outros produtos para ajudar famílias carentes que estão em tratamento.
O Voluntários da Saúde conta com diversos braços de atendimentos. Quais são eles e como funcionam?
Atendemos principalmente no Hospital do Câncer. Nossos voluntários realizam desde a recepção dos pacientes e seus familiares, até o lanche que é oferecido, além de oficinas para a confecção de próteses especiais para as pacientes que retiraram a mama e não podem realizar a cirurgia de reposição. Temos ainda os grupos que realizam atividades especiais durante a quimioterapia e hemodiálise, com o intuito de distrair os pacientes e ajudá-los nesses procedimentos que são mais delicados. Também temos os voluntários que confeccionam as peças que integram o nosso bazar. Alguns passam nos quartos apenas para conversar com os pacientes. Realizamos ainda doações para os pacientes carentes, como cestas básicas, aparelhos, roupas, suplementos, entre outros. Na Santa Casa, realizamos a recepção dos pacientes e atuamos no setor de hemodiálise. A nossa missão é trabalhar pelo bem estar e a autoestima dos pacientes. Contamos com cabeleireiros voluntários que atendem duas vezes por semana trabalhando também a vaidade das pacientes que precisam desse cuidado.
Como funciona a parte financeira do projeto? E como é possível superar as dificuldades, principalmente em momentos conturbados como o vivido pela economia atualmente?
Cada voluntário doa por mês R$ 10. Não é obrigatório, mas todos gostamos de contribuir. Além disso, contamos com doações da comunidade, através do sócio contribuinte, que pode doar qualquer quantia e ações especiais como o McDia Feliz e o grande bazar, que acontece na primeira semana de novembro e pelo qual nos preparamos durante todo o ano. Também recebemos doações de produtos, como alimentos doados mensalmente por supermercados parceiros e que são utilizados nas cestas básicas. Enfim, conseguimos manter o nosso atendimento através dessas ações. O grande desafio para este ano, sob o comando do novo presidente, é conquistar mais sócios contribuintes.
Os voluntários atuam em momentos delicados em que os pacientes estão mais fragilizados pelo tratamento. Como é realizada a abordagem?
Estamos doando coisas que não têm preço. É o nosso tempo, amor, carinho e, principalmente, a nossa dedicação. Queremos apoiar o paciente da forma que ele achar melhor. A primeira coisa que fazemos quando entramos em contato com o paciente é questionar em que podemos ser úteis para eles. Seja emprestando um ouvido, segurando uma mão ou simplesmente estando ali, mesmo sem dizer nada. Jamais falamos da doença e do que lhes aguarda, esse não é o nosso papel. O nosso desejo é apenas contribuir para transformar esse período em algo menos doloroso e, na medida do possível, mais alegre.
É possível observar, de acordo com dados do próprio Hospital do Câncer de Franca, que houve aumento no número de atendimentos nos últimos anos. Como o grupo se adaptou a essa mudança na demanda?
Quando começamos, o hospital recebia quatro crianças e 17 adultos para o tratamento. Hoje, em média, são 1,7 mil adultos e quase 200 crianças. Na mesma medida em que cresceu a demanda também cresceu o número de voluntários. Contamos com a ajuda de toda a comunidade e isso é essencial. Em Franca, o pessoal é bem receptivo e todas as ações que fazemos sempre contam com uma adesão maravilhosa. Assim acredito que, na medida em que a demanda aumentou, também evoluímos e conquistamos melhorias para oferecer aos pacientes.
Quais as conquistas consideradas mais importantes do Centro de Voluntários da Saúde de Franca?
Todos os dias conquistamos grandes coisas. No ano passado, apesar do receio com toda a situação econômica do país, o McDia Feliz e o nosso grande Bazar nos trouxeram grandes resultados. Com isso, compramos três equipamentos chamado visualizador de veias. O aparelho facilita a coleta de sangue, a administração de medicamentos ao paciente, além de evitar hematomas, já que, por meio de uma projeção de luz infravermelha, o profissional de saúde consegue mapear melhor a veia. Esses equipamentos já foram entregues e devem funcionar em breve.
Qual é o principal perfil dos voluntários?
Nos últimos anos muita coisa mudou, porém, o perfil dos nossos voluntários continua praticamente o mesmo. São mulheres, na maioria das vezes a partir dos 40 anos, e aposentados. No total, 80% são desse perfil, mas o número de homens aumentou bastante tanto que, pela primeira vez na nossa história, um homem, o José Luís de Oliveira Beneli , está assumindo o comando do grupo. Acredito que, com o tempo, esse perfil vá evoluir e possa mudar, mas é importante frisar que, mesmo em menor número, nossos homens prestam um serviço maravilhoso.
O que é preciso para participar como voluntário do Centro?
É preciso ter mais de 18 anos e estar comprometido com o serviço que prestamos. Cada voluntário pode escolher o dia e o melhor horário para doar o seu tempo. Antes de começar, os futuros voluntários participam de encontros com psicólogo e também com o coordenador. Eles mesmos definem o local que desejam trabalhar e, se não conseguirem se adaptar, podem manifestar o desejo e trocar. Alguns voluntários hoje não estão 100% ativos, mas sempre que temos ações gerais, para arrecadação ou mesmo campanhas como o McDia Feliz e o grande Bazar, todos cooperam. Ajuda é sempre bem vinda e qualquer dúvida pode ser sanada no Centro, através do telefone (16) 3704-2122.
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