Esta semana mantive conversa com Willian Karan Filho, competente advogado como seu pai e atual coordenador do Procon de Franca. Pedi-lhe sugestões sobre cobrança indevida a mim apresentada por empresa com atuação em boa parte das estradas paulistas. Solícito, ajudou-me a colocar o assunto a andar. Sem o órgão, para certas empresas somos só números ‘do sistema’.
Trocamos impressões sobre o comportamento da — infelizmente — maioria dos consumidores que vão ao órgão em busca de soluções para suas relações de consumo e, de repente, some. O Procon recebe o reclamante, ouve, produz um termo circunstanciado da queixa e envia à empresa reclamada, pedindo informações. A empresa responde quase sempre se escorando em peças de refinada linguagem jurídica, mas, via de regra, considerando a reclamação ‘descabida e indevida’ e solicita que o órgão ‘arquive’ o procedimento. O consumidor reclamante, também via de regra, recebe uma cópia do que a empresa envia ao órgão. Lê. Não entende. Percebe que é um advogado, ou uma banca de advogados quem assina. Teme. Mesmo dono da razão desiste da proteção do Procon, paga o que julga indevido e abre mão de seu direito. Fortalece, sem perceber, a continuidade de práticas viciadas daquela mesma empresa frente a tantos outros.
São ‘golpes’ quase institucionalizados na vida do brasileiro. Estão nas ‘vendas casadas’ de lojas comerciais e de bancos. Estão nas quebra de serviços oferecidos e não totalmente prestados. Está nas oportunidades produzidas por brechas nas leis. Está na falta de informação das pessoas sobre direitos. Sobretudo, está na descrença de que a justiça possa decidir em benefício da ‘parte mais fraca’ da relação comercial. Disse-me Karan Filho que se os reclamantes levassem suas causas à frente, fossem mais firmes na defesa de seus direitos, alcançariam resultados adequados.
Lembra-me a história do centroavante do futebol de várzea que, mesmo bom jogador, ‘afina’ quando o zagueiro de dois metros e meio de altura o ameaça com a sola da chuteira. De minha parte, consciente de meus direitos, vou em frente. A depender de mim, o dinheiro que suo para ganhar não darei sem trombar antes com o zagueiro, tenha lá o tamanho que tiver. Penso que quando todos estivermos conscientes de nossos direitos e deixarmos de correr frente a ameaças que nos façam, será a vez de apenarmos todos os que têm certeza de que não somos de nada...
Efeito ‘Dona Santa’: Semana passada falei sobre dona Santa, senhora de princípios à antiga que acolheu em sua casa o cão Thor — solto por bandidos que assaltaram a casa de sua dona —, e o devolveu recusando-se a receber recompensa de R$ 3 mil oferecida a quem o encontrasse. Leitores se disseram espantados e perplexos com a aula de ‘gratuidade’ que ela deu. A atitude de dona Santa não é rotineira. Só pratica quem — ainda — cultiva decência e respeito ao próximo. Encerrei aquele texto dizendo que ainda há esperando para este nosso mundo onde, cada dia mais, cada um cuida só de si.
Esta semana, mais uma história. Um vigilante chamado William encontrou carteira ‘recheada’ de cartões, documentos importantes e R$ 380 em dinheiro que Lucas Garcia, companheiro nosso do GCN havia perdido. Foi, pessoalmente, entregar-lhe. Lucas disse que ‘não faltava nada. Tentei recompensar William, mas ele foi enfático dizendo que não queria nada, que devolver era seu dever’.
A índole do brasileiro simples é respeitosa, ética e do bem. O problema é quando se torna ‘doutor’ seja lá no que for — voto, a exemplo —, e sente o gosto do mal .
Bem que certos políticos, certos empresários e todos os bandidos querem nos convencer para a facilidade de ter o que quisermos, sem fazer força, mas dona Santa e William nos ensinam que podemos dizer ‘não’.
Luiz Neto
jornalista, editor de Opinião - luizneto@comerciodafranca.com.br
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