Nesta nossa fração de mundo, as muitas águas enviadas do céu marcam o início de mais um ano. A natureza não se furta a lavar os resíduos do ano passado. Procuro encontrar o significado disso, como de muitos outros fatos, naturais ou não, porque, em meu entender, tudo parece ter, além de uma causa e de seu efeito, às vezes claros, um propósito, muitas vezes, indecifrável ou indistinto. E se as causas e os vários efeitos dessas muitas águas que caem insistentemente sobre as cabeceiras do novo ano são conhecidos, qual seria o seu propósito? O do recomeço em espaço limpo? O da rega visando ao brotamento de novas gemas, provindas de novas sementes? A renovação, enfim? Ou seriam apenas lágrimas: metáfora de um choro copioso pelo que foi o velho tempo e pelo que pode vir a ser o novo? Águas alegóricas, ou seja, aquelas que, nas palavras de Georges Gurvitch, “revelam velando e velam revelando”, neste caso, tristeza pelo passado e mesmo pelo futuro?
Recorro a Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, estudiosos de símbolos, e eles me dizem que “as significações simbólicas da água podem reduzir-se a três temas dominantes: fonte de vida, meio de purificação, centro de regenerescência.” Crio novo ânimo. Penso nos três com ânsias de unificação, com a quase incontrolável vontade de que essas águas sejam tudo isto ao mesmo tempo: fonte de vida purificada, regenerada (em seu sentido original latino: regenerare, composto por re - de novo, outra vez - mais generare - gerar, produzir). Penso nessas águas, pois, como fontes de vida refeita, reconstruída, agora, sobre alicerces de pureza.
Quero ser otimista. Preciso ser otimista.
Arrisco-me a crer que este nosso fragmento de mundo se banhará neste líquido regenerador como na Antiguidade Clássica banhavam-se os romanos nas termas, em busca de saúde: salus per aquam.
O Brasil precisa disto: banhos de saúde - física, moral, intelectual e ética.
O brasileiro quer acreditar na possibilidade de uma saúde assim. E merece tê-la.
Que seja este, pois, o propósito dessas chuvas. Que se empape o tecido social de águas puras, cristalinas, confiáveis, potáveis, saneadoras. Que sejam elas rios de esperança brotando e descendo do céu sobre todos nós.
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