Começa em São Paulo neste domingo uma das maiores feiras calçadistas da América Latina. A Couromoda 2016 vai até a próxima quarta-feira com a missão de aquecer as vendas do setor neste primeiro semestre. Para o presidente do Sindifranca (Sindicato da Indústria de Calçados de Franca) José Carlos Brigagão, neste ano, a feira terá uma importância ainda maior. Ela será decisiva para os mais de 10 mil sapateiros de Franca que estão desempregados. “As recontratações dependem do que vai acontecer agora”, disse.
Mas mesmo que os resultados da feira sejam animadores, para Brigagão, não serão suficientes para resolver a crise vivida pelo setor. “Tivemos um 2015 muito ruim. Foram 4 milhões a menos de pares produzidos, demissões acima da média e exportações praticamente estagnadas. Acreditar que uma feira, por mais importante que seja, resolverá tudo é ilusão”.
Brigagão recebeu o Comércio na tarde de quinta-feira na nova sede do Sindifranca. Falou sobre como a crise política e econômica do país tem refletido no setor, fez um balanço sobre as expectativas para 2016 e rebateu as acusações de tentar influenciar as negociações salariais deste ano.
Muito se falou na crise enfrentada pela economia brasileira em 2015. Como ela atingiu o setor calçadista de Franca? Que balanço o setor faz do ano passado?
A crise não foi apenas econômica. Estamos enfrentando também uma instabilidade política que afeta diretamente a economia. O setor calçadista de Franca foi um dos últimos a ser atingido, mas não escapou. O principal reflexo foi a redução da produção industrial. Em 2015, a indústria calçadista de Franca fabricou 4 milhões de pares a menos que em 2014, o que resultou em um corte de mão-de-obra. Não conseguimos recontratar todos os funcionários demitidos no final de 2014 e ainda demitimos mais. Fechamos o ano com quase 10 mil empregados a menos. É assustador. Uma indústria que chegou a empregar mais de 30 mil pessoas em outubro de 2013 hoje estar com um saldo de 18 mil empregados. Então, só posso dizer que 2015 foi um ano muito ruim.
Em dezembro, em uma entrevista ao Comércio, o senhor se mostrou muito preocupado com a recontratação destes empregados demitidos pelo setor calçadista de Franca...
Sim. Se nós analisarmos os últimos 16 anos, o emprego no setor calçadista de Franca vem oscilando e nunca atingindo sua capacidade instalada de produção, ficamos sempre girando em torno de 80%. Com o cenário político, econômico e financeiro que estamos enfrentando, não vejo perspectivas de melhora. Pelo contrário, acredito que 2016 será ainda pior que o ano passado. Acho muito difícil que a indústria de Franca consiga recontratar 10 mil pessoas em um cenário de retração em que as pessoas simplesmente deixaram de comprar sapatos. Estou, de fato, muito preocupado.
A Couromoda começa neste domingo em São Paulo. Qual a importância da feira para o setor calçadista de Franca neste momento?
A Couromoda é hoje uma das maiores feiras calçadistas da América Latina. Seu papel para o setor é fundamental. Em 2016, ela terá uma importância ainda maior. Será o norte que nos dirá em que direção deveremos seguir e o que poderemos esperar principalmente neste primeiro semestre do ano. A recontratação de boa parte da mão-de-obra depende muito das vendas da feira. Mas temos de ser realistas. Não tem como a feira assumir a responsabilidade de resolver as mazelas do setor. Mesmo que as vendas na Couromoda sejam boas não serão suficientes para resolver todos os problemas. Isso é ilusão. Temos que ter o pé no chão. Entender que o mercado interno está em recessão e focar o trabalho nas exportações.
Com o dólar batendo nos R$ 4, as exportações podem ser uma saída?
Podem, mas o empresário francano precisa saber como exportar para não correr riscos desnecessários e não perder dinheiro. O grande problema para os contratos de exportação hoje é a volatilidade do dólar. Como a cotação tem variado muito, a instabilidade do câmbio não permite que as empresas fechem contratos para futuro, sem falar na desconfiança do importador com a situação político-econômica do Brasil. Outro problema é que, com o mercado interno aquecido nos últimos anos, as empresas focaram suas vendas apenas dentro do país, deixando de lado o mercado externo, desaprendemos a exportar, abrindo brecha para os nossos concorrentes. Para se ter ideia do que estou falando, hoje as exportações representam menos de 10% da produção de calçados da cidade. É muito pouco. Fizemos um estudo sobre as vendas para o mercado externo nos últimos anos e o que constatamos é que há sete anos quase não há alterações no total exportado. Ficamos sempre entre US$ 2,9 milhões e US$ 3 milhões. No ano passado, ainda fomos um pouco melhor, atingimos US$ 3,2 milhões. Mas diante do panorama atual, acredito que esses valores devem subir sim, mas não o suficiente para compensar as perdas no mercado interno.
Recentemente, o novo presidente da Argentina anunciou que deve rever as barreiras impostas às exportações brasileiras de calçados. Essa revisão pode ajudar a indústria francana?
Com certeza, mas não serão resultados que aparecerão da noite para o dia. Hoje a Argentina ocupa o 18º lugar no ranking de importadores do calçado francano. Fica atrás de países como o Paraguai ou a Bolívia. As exportações para a Argentina representam apenas 1,4% do total comercializado no mercado exterior. Reverter esses números levará tempo, mas acredito que se o governo argentino cumprir o que foi dito podemos sim aumentar nossas exportações.
No final do ano passado, o Sindifranca realizou um evento sobre as previsões para a indústria calçadista em 2016 que não são nada animadoras. O senhor também parece bastante pessimista em relação ao que deve acontecer neste ano. De fato, não há uma solução para esta crise? Há como reverter esse cenário negativo?
O que eu mais queria era dar uma entrevista dizendo que tudo será maravilhoso, que haverá recontratações e que as fábricas vão crescer. Mas não posso mentir. Não posso ser irresponsável a este ponto. Muitos têm afirmado que sou pessimista mas não sou. O que sou é realista. Nossas afirmações se baseiam em números de indicativos do setor. Não podemos ignorá-los. Temos que estar cientes do que vem acontecendo para nos prepararmos. Não adianta tampar o sol com a peneira. Temos que nos conscientizar que o momento é de lutar para sobreviver. Lutar para continuar produzindo. Esse é o nosso desafio. Não há qualquer sinal de que haverá alguma mudança que traga alívio ao setor produtivo. O que temos de fazer é pressionar para que haja uma solução rápida do imbróglio político em que encontramos para que a economia possa caminhar novamente.
Os calçadistas defendem a reforma tributária e pedem mais apoio aos governos estadual e federal para estimular o consumo e a produção. Com esse panorama político no Brasil, ainda há esperança de obter esse apoio?
Como já disse, não temos ideia do que irá acontecer. Os esforços do governo federal estão em resolver a crise política que ele enfrenta com o pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT). Não há avanço no sentido de reformas que possam de fato beneficiar as indústrias. Pelo contrário, o que mais ouvimos é sobre o aumento da carga tributária e dos insumos de produção, como, por exemplo, a energia elétrica. O governo parece não perceber que estamos no limite. O gigante, representado por todo o setor produtivo, já deitou. Só mesmo depois que a crise política for resolvida é que teremos de fato uma discussão a respeito.
Tem alguma medida que poderia ser adotada imediatamente pelo governo para ajudar o setor calçadista?
Temos algumas coisas em andamento. Um dos projetos é o que prevê a instalação de uma base comercial brasileira na China, em Xangai, voltada especificamente para o setor calçadista. Mas ainda estamos na fase de pesquisa e levantamento de custos. Também devemos fazer um novo levantamento do setor calçadista do Estado de São Paulo, que será subsidiado pelo Governo do Estado e servirá de base para a realização do planejamento estratégico setorial. Mas são ações que levam tempo para trazer frutos. De imediato mesmo, não há nada.
Estamos também em período de negociações salariais. O presidente interino do Sindicato dos Sapateiros, Agnaldo Madaleno, chegou a afirmar que o senhor estaria tentando influenciar as negociações com previsões negativas para o setor. Como o senhor vê essas afirmações?
O que posso dizer é que ele está plenamente equivocado. Não estou fazendo política. Nem precisaria disso. Ele deveria saber que foi sob a minha gestão que os trabalhadores conseguiram os maiores percentuais de aumento no piso salarial e reajustes sempre acima da inflação acumulada. O piso da categoria quando eu assumi a presidência do Sindifranca em 2008 era de R$ 558. No ano passado, fechamos em R$ 980, praticamente dobrou durante a minha gestão. Não preciso ser político. Os números do setor falam por si. Basta olhar os números de emprego e faturamento que você verá o quanto é preocupante o cenário. Para mim, foi uma declaração infeliz.
Como estão as negociações salariais para 2016?
Na verdade ainda nem começaram. A data-base da categoria é março. Estamos aguardando o Sindicato dos Sapateiros protocolar a pauta de reivindicações para este ano.
Mas já é possível ter uma ideia do quanto será o percentual de reajuste?
Ainda não. Não fizemos todas as contas necessárias. Estamos aguardando os resultados da Couromoda para começarmos os estudos que levam em consideração diversos índices econômicos, como a taxa de inflação, a média de reajustes de outros setores e as projeções de venda e de custo. Qualquer percentual que eu dissesse agora seria prematuro. O que posso dizer é que os empresários sabem que dependem da colaboração e da dedicação de seus funcionários. Não queremos prejudicar ninguém mas também não podemos assumir compromissos que não teremos como honrar. Vamos aguardar.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.