Levo muito a sério a responsabilidade de, a cada sábado, fundir letras em palavras, e palavras em ideias que signifiquem construir — ou até, reconstruir — valores que hoje não existem mais. Gratuidade, a exemplo. Você sabe o que é? Não, não se trata da gratuidade de passagens de coletivos urbanos a determinados grupos, idosos e deficientes físicos a exemplo.
Falo da gratuidade que o dicionário Houaiss define como ‘dado ou recebido de graça’, mas entendida segundo virtudes humanas, se torna dom respeitoso, solidário, praticado sem espera de contrapartida. Você perde sua pasta, aquela que tem celular, documentos, pendrives. Entra em desespero. De repente, o telefone toca. Perguntam-lhe: ‘o senhor é fulano de tal?’ A voz é desconhecida. Você, arredio, dispara: “quem é e o que o senhor deseja?’
‘O senhor perdeu uma pasta?’ O coração dispara. Será que se trata da ‘minha pasta?’ Como, no mundo, todos querem se dar e gratuidade é uma quase utopia, você se arma: ‘pronto, encontraram minha pasta e vão pedir recompensa. Quanto será que vou pagar para reaver o que é meu, e não é de quem encontrou? Como é que esse ai tem coragem para entrar em contato e pedir dinheiro para devolver o que é meu? É o fim do mundo!’. ‘Cabeça feita’ contra ‘o sujeito’, devolvo ríspido ‘sim, perdi!!!’.
‘O senhor pode descrever algo que tenha na pasta?’ Pé atrás — neste mundo todos querem levar vantagem em tudo —, você se programa: se eu disser que tinha celular e pendrives na pasta, ele vai dizer que não tem, só papeis. Não posso confiar! Se for, realmente, minha pasta e ele pedir que eu vá até ele, preciso levar alguém, não ir sozinho.
Você, então quase atira: ‘como foi que o senhor achou meu telefone?’ A voz o traz à realidade: ‘o senhor não é fulano de tal? Tive que abrir a pasta que foi deixada na frente de minha casa, e nela tem cartões de visita com seu nome’. Confuso, você se cobra: ‘será que ainda tem gente decente no mundo?’.
O resto da história não preciso contar. Sim, tem gente decente no mundo. Tem gente que ainda devolve troco dado a mais em caixa de supermercado. Tem pais e mães que mandam o filho devolver o que tirou da casa do vizinho, e vão juntos para pedir desculpas. Tem garis que buscam donos de carteiras recheadas de dinheiro que não ganhariam em um ano, e voltam felizes ao trabalho depois de reconhecidos com a gratidão de um ‘muito, muito obrigado!’. Também tem que encontra cães bem tratados e soltos na rua, sabem que devem ter se desencontrado dos donos e vê, nisso, oportunidade de um ‘bom negócio’. ‘Pego e devolvo sob recompensa. Se não aparecer ninguém, vendo’. A cada dia, menos pessoas pensam em solidariedade. Gratuidade? O que é isso?
Gratuidade é dom, e dom que não praticado, torna este mundo cada vez menos solidário, mais solitário: ‘como é que o dono do que encontrei não vai me dar algo pelo grande favor que lhe fiz? Se não pagar, prefiro jogar no mato. Que ele se (...)’.
Dona Santa é uma senhora idosa, moradora em Franca. Em dezembro encontrou perto de sua casa, cão solto bem tratado. Acolheu-o, mas sabia que não era seu. Colocou-se a conversar aqui e ali sobre quem o teria perdido. Ouvidos atentos, percebeu trecho de conversa em ponto de ônibus. Mostraram-lhe foto do cão Thor, solto na rua por bandidos que assaltaram uma residência. Entrou em contato com a dona e ficou sabendo de recompensa de R$ 3 mil. Fez Thor se reencontrar com sua dona, mas não queria nada em pagamento. ‘Fez por é assim que tem que ser’. O que se recebe de graça, dá-se de graça. Gratuidade.
Quando ocorre, desconcerta. Dona Santa cuida de outros animais abandonados. Faz porque acha que tem que fazer. Não quer nada. Só depois de muita insistência resolveu aceitar ração para alimentar os animais. A ela, professora de gratuidade, ofereço este texto. Espero que ajude a multiplicar o que ela fez. Gratuidade.
Luiz Neto
jornalista, editor de Opinião - luizneto@comerciodafranca.com.br
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