O soar da campainhia e do telefone não param. Ora gente pedindo ajuda, ora gente oferecendo. “Vocês me desculpem, eu já volto. É assim o dia inteiro”, se explicava Rosinha Aylon, sempre que precisava se ausentar da entrevista para atender aos chamados. Enquanto o Comércio esteve em sua casa, o rito se repetiu cinco vezes. Saiu de sua casa, para doação, de geladeira a panetone, ao passo que, em contrapartida, entravam itens de cesta básica.
Rosa Aparecida de Pádua Aylon, diretora do Berçário Dona Nina, é conhecida em Franca pelos inúmeros trabalhos assistenciais que presta voluntariamente. A vocação, conforme ela diz, vem de família. Nascida na cidade mineira de Pratápolis - onde viveu até os 7 anos, antes de vir para Franca - ela via nos pais, Elídio e Domingas, a disposição de ceder a casa para que desconhecidos tivessem um teto para se abrigar. “Mamãe e papai não deixava que ninguém necessitado saísse sem um prato de comida de nossa casa. Eles acolhiam os andarilhos em um cômodo no fundo de casa e, ali, eles podiam tomar banho, comer e dormir. Papai aparava até mesmo as barbas dos que passavam. Éramos em oito irmãos, perdemos um, mas todos crescemos do mesmo modo”, relembra ela.
Já em Franca, a família numerosa, sustentada pelo trabalho de pedreiro do pai e tino comercial dos irmãos mais velhos, seguiu com sua inclinação solidária ajudando, do mesmo modo, a quem os solicitasse.
Rosinha ingressou no mercado de trabalho aos 15 anos, como atendente em uma padaria. Tempos depois, conseguiu vaga de caixa no Magazine Luiza, local que deixou depois de casada, quando esperava seu primeiro filho. “Me casei com o Leonel aos 23 anos. Minha primeira gravidez exigiu cuidados e decidi deixar o emprego para me dedicar à família. Nunca me arrependi”, disse ela. Segundo seus relatos, o marido foi “arrastado” para suas diligências solidárias já na segunda semana de casamento. A seu lado, Leonel passou a integrar as Caminhadas Fraternas grupo que, na época, percorria os bairros distribuindo pães, leite e cestas básicas. “Nunca abandonamos essa missão de ajudar o outro. Mas em minha terceira gravidez, em 1982, perdi meu filho que tinha um mês de idade. Chorei muito, mas muito mesmo. Meus filhos ‘petiticos’ me abraçavam e diziam: mãe, cuida de mim. Foi quando respondi: não só de vocês, mas de todos os que precisarem de mim. Foi a partir dessa decisão, que intensifiquei meus trabalhos.”
Deste episódio em diante, além das atividades das quais já participava, passou a distribuir sopas e a ministrar o Coen (ensino da doutrina Espírita). “Foi assim que conheci o Berçário Dona Nina”, relembra. “O Centro Espírita era ao lado e fui me envolvendo com o trabalho até ser convidada a dirigir a entidade, em 1994.” Desde então, Rosinha Aylon passou a carregar um segundo sobrenome: Rosinha, ‘do Berçário Dona Nina’.
Neste Natal
Além de atuar como diretora do Berçário Dona Nina, Rosinha serve sopa no bairro Aviação, produz artesanatos ao lado das voluntárias do Berçário para arrecadar fundos para a entidade, visita a hospitais e necessitados, realiza casamentos, almoços, frequenta reuniões espíritas, realiza atendimento fraterno (ouvir as pessoas e passá-las uma palavra amiga), numa rotina que, geralmente, se inicia às 6h30 e termina por volta das 22 horas.
Nos finais de ano, Rosinha encampa a missão de recolher mantimentos e presentes para distribuir aos necessitados. Neste Natal, após ter recolhido mais de cem brinquedos e itens para, pelo menos, oito cestas básicas, viu sua casa ser invadida, na madrugada do dia 14, por ladrões que levaram as doações. O fato, no entanto, teve um efeito inesperado para a ação de Rosinha. “Depois deste episódio, muitos corações foram tocados e a ajuda veio redobrada. Conseguimos cerca de 500 brinquedos e vamos distribuir entre 120 e 160 cestas”, contou ela, emocionada. “Agradeço a Deus, que nos protegeu, e a eles (ladrões), que são nossos irmãos, estão necessitando de remédio e não machucaram a minha família.”
"Depois deste episódio (roubo das doações), muitos corações foram tocados e a ajuda veio redobrada. Agradeço a Deus, que nos protegeu, e a eles (ladrões), que são nossos irmãos, estão necessitando de remédio e não machucaram a minha família”
Rosinha Aylon,
sobre o assalto a sua casa, às vésperas do Natal, quando os ladrões levaram as doações que ela havia conseguido para distribuir a famílias carentes da cidade
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