A esperança nos netos


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Em nosso íntimo, sabemos: somos todos corruptos. Não há fila de espera, troco dado a mais em caixas, artigos piratas, TV a cabo sem pagar que não faça cócegas. Se o DNA do caráter brasileiro for destrinchado, lá estará nossa tendência à desonestidade. Elegemos corruptos porque, inconscientemente, queremos que nos representem frente a possibilidades milionárias. Os invejamos. Cá fora, nunca afeitos a ter algo com muito suor, buscamos nas loterias a oportunidade de nos igualar àqueles que, sem ética, conseguem ter o que quiserem.  Pobre país, que a isso se curva! Não à toa tenho perguntado aqui, algumas vezes, se você, que me lê, não tem vontade de se tornar um desses...
 
O Brasil é muito jovem. Tem só 515 anos. Nossa população iniciou-se meio ‘assim assado’: “Com Pedro Álvares Cabral em 1500, chegaram não somente os assim chamados “descobridores”, mas também os degredados que, naquela época, eram colocados nas caravelas e naus que singravam os sete mares.’ E mais: “assassinos, ladrões, falsários, feiticeiras, sodomitas e heréticos de todos os tipos foram degredados para o Brasil. Outros “criminosos”, aparentemente considerados de menor importância, foram também banidos: vadios, ciganos, alcoviteiros e agressores. Até mesmo aqueles que matavam “bestas”, cortavam “árvores frutíferas” e arrombavam “portas” podiam ser enviados para as terras do além-mar.’ (PIERONI, Geraldo. Vadios e ciganos, heréticos e bruxas: os degredados no Brasil - colônia. Rio de Janeiro, Bertrand, Brasil, 2002, 144p.).
 
Para esses, obrigados a se virarem para sobreviver, criar jeitinhos se tornou questão de vida ou morte. Ainda de acordo com Pieroni, foram 322 anos de degredo direcionado às terras tupiniquins. ‘O tema do degredo português no Brasil... ajuda a abrir janelas para a compreensão de assuntos importantes para a história brasileira, tais como o funcionamento do sistema judicial e das penitenciárias no país..., o fluxo das migrações internacionais, a vida cotidiana, a pobreza, a violência, a criminalidade, as práticas religiosas, as relações Igreja-Estado.’
 
Não é este texto a instância correta para entrar fundo na questão, mas é história pura, e tem que servir à reflexão. A frase não é minha, mas é preciso recordar que ‘qualquer mentira, dita à exaustão, pode se tornar verdade’. Quanto a caráter, ética, moralidade, dá no mesmo. (É simples olhar para o lado e ver que tipo de caráter, ética e moralidade possuem — ou possuíram um dia — esses que agora, desmascarados por delatores, falam de suas manobras criminosas como se fossem absolutamente normais). 
 
Quase se pode afirmar que não há mais nada a fazer, já que a decência se foi e a impunidade campeia, mas não se pode esmorecer. Ouvi, e compartilho: “o mundo que nós vamos deixar para os nossos filhos depende muito dos filhos que vamos deixar para esse mundo’. Nessa linha de pensamento, mesmo que lhe doa e o faça sentir-se como uma ‘besta quadrada’, você tem que passar a criticar, fiscalizar, denunciar quem exercita poder pensando apenas em si, e também, e principalmente, castrar sua própria vontade imensa de ‘dar um boné’ em quem está em filas, para poder rir depois ‘desses manés’. Se melhorar como homem e conseguir fazer seus filhos entenderem seu esforço, ainda dá tempo...
 
‘CONTINUE(M)’: Agradeço votos de saúde e prosperidade no 2016 que nos aguarda daqui a 12 dias. Também agradeço leitura a meus desprentenciosos textos de fim de semana, recebidos de Amir Antônio Miguel (‘Coragem! Continue confiando nos brasileiros de bem. Eles existem!); Paulo Rubens de Almeida (‘Continue semeando. Quantidade certa cairá em terra fértil!’); José Reinaldo do Carmo (‘sim,  voto inteligente dá certo; internet bem usada faz diferença e, especialmente, que não se pode atirar virtudes ao lixo!’). 
 
 
Luiz Neto
jornalista, editor de Opinião - luizneto@comerciodafranca.com.br
 

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