Dezenas de rostos conhecidos do mundo da moda e do espetáculo se reuniram no ano passado nos espaços da New York Fashion News para os desfiles de abertura da Semana de Moda mais conhecida do mundo. Entre eles, o mais fotografado não era o de uma jovem manequim ou atriz célebre, mas sim o de uma nonagenária que usava óculos de armação enorme, trajava um vestido muito colorido e levava ao pescoço uma echarpe de esvoaçantes plumas azuis. Seu nome? Iris Apfel, cujo estilo personalíssimo e visão especial da moda e da vida tornaram uma celebridade internacional.
Chamada de “rare bird” pelos jornalistas de língua inglesa, e de “oiseau unique” pela imprensa francesa, sua vida era mais ou menos anônima até que um acontecimento a trouxe para a cena cosmopolita em 2005. O Metropolitam Museum de Nova York a escolheu para tema da exposição “Rara Avis: Selections from the Iris Barrel Apfel Collection”. Nunca uma mulher sozinha havia protagonizado exposição no Met. Ela tinha 84 anos e se tornou uma celebridade. Antes era respeitada decoradora de interiores.
Dois anos depois, apresentou peças de seu guarda-roupa para o livro “Rare Bird of Fashion: The Irreverent Iris Apfel”. Em 2011 fechou parceria com a M.A.C para uma coleção de maquiagem. E em 2013, com a Eyebobs, firmou contrato para uma linha de óculos. Neste mesmo ano veio ao Brasil onde fotografou para a Vogue sob o mote “Ensina-me a viver”. Encantou-se com as coloridas bijuterias das feirinhas cariocas de artesanato. Colocou no pescoço enormes móbiles de vermelhas pimentas dedo-de-moça e transformou-os em colar com o qual circulou por Ipanema. Traduzia na prática o que havia querido dizer com “estilo nada tem a ver com dinheiro, mas com capacidade de ousar se mostrar como se é.”
Foi portanto depois dos 84 anos que esta mulher singular no jeito de sentir a vida viu-se alvo de olhares importantes que lhe descobriram o senso estético extraordinário, de cuja existência ela sempre teve consciência, sim senhor. Mas a partir da exposição é certo que virou mais que uma estrela, passou à categoria dos ícones. Quem acessar o Google verá o alcance de sua imagem ao redor do mundo. Mas as coisas não lhe sucederam sem razão. Havia um lastro, pois ela nasceu numa família onde a mãe era modista e o pai fabricante de espelhos. Já tinha portanto um décor , uma mis-en- scène, desde bebê. Nunca foi bonita, como se auto define; mas demonstrou desde sempre curiosidade tão grande sobre todas as coisas, que este atributo a fez pessoa interessante. Aos 23 tinha se tornado decoradora e aos 25, quando se casou com Carl Apfel, hoje centenário, criou uma empresa de importação de tecidos e foi com o marido rodar o mundo em busca de mercadorias. O fato de viajar muito à procura de novidades foi com certeza um dos motivos que levaram Íris a uma visão de mundo original, inspiradora, aberta. Entre seus clientes esteve várias vezes a Casa Branca, ou seja, pelo menos nove presidentes norte-americanos lhe pediram aconselhamento na hora de reformar, restaurar ou reestruturar ambientes daquele espaço emblemático de poder.
Bem articulada em suas entrevistas, Iris abre espaço à lucidez e autenticidade, e suas respostas desvelam um jeito especial de viver. “A beleza é algo bem relativo, mas o estilo diz mais sobre a pessoa que sua própria aparência”. “Não há uma explicação objetiva sobre estilo; ele é uma expressão pessoal e, principalmente, de atitude”. Contrariando a regra de elegância segundo a qual “menos é mais” ,enfatiza seu ponto de vista: “Mais é mais e menos é entediante.” (No original a frase tem mais graça por conta da rima: “More is more and less is a bore”). Frasista, tem uns insights meio psicológicos, meio filosóficos: “A cor pode ressuscitar os mortos”. “Seja fiel a si mesmo e não uma fotocópia.” “Eu me visto como outros tocam jazz.” “Essencial é manter o espírito aberto a tudo o que a vida pode oferecer.” ”Melhor ser feliz que estar bem vestida”. “A inspiração vem de onde não se espera.” “Quando somos fiéis a nós mesmos, tudo ao redor conspira a favor.” O senso de humor não a abandona nunca: “Envelhecer não é para maricas, vou te contar”.
A famosa apresentação no Met não exibiu apenas os milhares de bijus de Iris; revelaram que seus estilismos iam muito além dos berloques. Sua concepção de moda era sinfonia de criatividade, extensão de sua maneira de ver a vida. E essa apaixonante cosmovisão acabou por atrair a atenção do grande cineasta norte-americano Albert Maysles.
É assinado por ele o documentário Iris, de 83 minutos, concluído ano passado e disponibilizado no último novembro aos assinantes da NetFlix. Durante um ano Maysles (que morreu há três meses) seguiu Iris mundo afora. Sua câmera a acompanha por ruas e avenidas, grandes centros e pequenas cidades; oriente e ocidente; no campo ou na cidade, e sempre em movimento. O look de Iris mistura com frequência florais e listras, várias cores fortes, pantalonas e batas, saias compridas, às vezes rodadas, enormes e múltiplos colares, muitas pulseiras, e, como se fossem uma assinatura, os onipresentes óculos redondos, imensos, de aros também coloridos. O filme é magnífico, permeado pela curiosidade sobre uma vida que pulsa forte e resiste bravamente à passagem do tempo.
A fachada longilínea de Íris envolta em panos e bijus pode à primeira vista parecer over. Na verdade ela me parece amostra do rococó na sua expressão mais genuína de obra que acumula detalhes expressivos. E atrás dessa fachada um tanto barroca encontra-se uma mulher fascinante que foge inteiramente ao convencional. Ela rompeu com tudo o que era consensual e criou muito mais que um estilo próprio, autoral; inventou para si um personagem que se empenha em viver com intensidade e alegria, sempre em busca de algo novo que pode surgir a qualquer momento, desde que os olhos estejam bem abertos. Porque, como ela diz em certo momento, “é preciso saber improvisar, porque cada dia é diferente; levantar-se da cama pela manhã é aventura, pois nunca sabemos o que vai nos acontecer nas próximas horas do dia”. Tem um quê de Mrs Deloway esta frase.