“Eu tinha acabado de assumir o serviço, fiz a manutenção na viatura e estava pegando o cartão de patrulhamento quando escutei no rádio o sargento Da Silva pedindo apoio para uma ocorrência de roubo em andamento. Nós embarcamos e saímos em direção ao local. Já havia algumas viaturas fazendo o cerco. Desci e entrei na mata correndo em diagonal para não ser um alvo fácil. Se você corre em linha reta, está correndo risco de tomar tiro. Enquadrei um ladrão e pedi para ele largar a arma. Ele largou e correu para o vale. Localizei a arma e as mercadorias. Neste momento, desci rumo ao vale para verificar se tinha outro ladrão lá. Acredito que, quando ele estava fugindo, deve ter esbarrado no enxame. Quando virei com as mercadorias e o armamento, voltando para levar para a viatura, me deparei com o enxame totalmente agitado.
O ataque
Eram muitas abelhas, muitas. Segundo informações técnicas do pessoal da Santa Casa, eu devo ter tomado em torno de 300 a 600 picadas. A reação no momento foi tentar sair fora, mas não teve jeito. Elas estavam muito agressivas e juntaram em mim. Tomaram conta do meu rosto e dos braços. Foi uma luta. Fiz rolamento no mato, pus a cara no chão, esfreguei a cara no mato para tentar matar as abelha. Minha cabeça ainda está machucada de tanto que esfreguei no chão. A dor foi muito forte, elas estavam me picando e faziam muito barulho. O desespero foi tão grande que eu cheguei a passar a mão assim (nos braços e no rosto), pegava as abelhas, colocava na boca, mastigava e cuspia para tentar matá-las. Mastigava e cuspia para tentar matar, mas não teve jeito. Minha boca ficou toda roxa de tanta picada que levei.
Vencido pelo veneno
Eu tinha força para lutar só que não conseguia sair do local. O veneno atingiu o sistema nervoso. Então, fiquei meio que imóvel. Tentei correr três vezes, mas caí de joelhos. Não conseguia levantar. Na última tentativa, caí com a cara no chão. Clamei por Deus e pedi misericórdia. Era abelha entrando no nariz, na boca, no ouvido. Cheguei a temer pela minha vida. Não desejo o que passei nem para os próprios bandidos que estavam lá. Coisa assustadora, coisa assustadora. O local estava sitiado, o meu parceiro estava na parte alta da avenida. Neste momento, acredito que alguém viu essa luta minha. Teve informação de que me viram no mato abaixando e levantando. Acreditaram que eu estava lutando com os ladrões.
‘Deus tocou o coração’
No momento em que fui vencido e caí, Deus, pela infinita misericórdia dele, tocou no coração do Cabo Jean, que estava na Base Móvel lá no Galo Branco. Ele me disse que Deus tocou no coração dele e disse: ‘Vai lá ajudar o Sobrinho’. Ele sentiu essa força e foi prestar apoio. Me viu lá no vale quando eu já estava desfalecido. Eu não tinha forças para sair do local.
O pessoal juntou lá, acionou o resgate e tentou me puxar com uma corda, mas eu não tinha força para segurar. Neste momento, o Jean desceu no vale e me agarrou. O Soldado Andrei desceu também e pegou pelas pernas. Eu estava com a cara totalmente inchada e enfiada na terra. Não via ninguém. Só ouvia as vozes. Eles me arrastaram do meio daquele enxame e me levaram para cima do barranco. Foi quando o resgate chegou e me levou para o hospital. Só fiquei mais aliviado quando cheguei à Santa Casa.
Entre a vida e a morte
Fiquei internado 15 dias, sendo dez no CTI e seis deles em estado de coma. Tive insuficiência renal e respiratória aguda e choque anafilático. Fui me recuperando aos poucos e recebi alta no dia 5. Pela nossa rede de rádio, avisei os parceiros de trabalho que estava saindo do hospital e agradeci o apoio de todos os policiais.
’Foi milagre’
Minha recuperação foi um milagre de Deus. Cheguei ao hospital com 1% de vida. Todos os que me viram no hospital e me encontram hoje dizem: “Foi por Deus mesmo. Foi uma comoção muito grande. Todas as igrejas, católicas ou evangélicas, fizeram orações. Pessoas que a gente nem conhece rezaram pela minha recuperação. Agradeço o apoio de todos. Gostaria de destacar a ajuda do irmão Durval, que deu toda assessoria à minha mulher e filhas.
A soma de fé salvou minha vida. Minha filha criou um grupo no WhatsApp e o clamor se espalhou para os amigos e familiares de todo o Estado. Não acho, tenho certeza que Deus colocou a mão. Foram duas situações decisivas: atribuo o milagre à intervenção direta de Deus e à competência dos médicos que me atenderam. Agradeço aos doutores Ciro de Castro Botto, Ângelo Meleti, Edson Cunha, César Augusto e Fabíola Leite e a todos os funcionários da Santa Casa.
O Cabo Jean foi o protagonista do pronto-atendimento. Ele chegou ao local, me viu lá, não teve medo, não teve receio, assumiu o risco de cair na mesma condição que eu. Ele e o soldado Andrei desceram no vale sem proteção, sem nada, e me salvaram. Me lembro do Jean usar as seguintes palavras: ‘Amigo, aguenta firme, você é forte, teu Deus é forte (neste momento, Sobrinho se emociona e chora). Ele falou: ‘Tenta respirar. Fica firme que vamos te socorrer. Você não vai morrer aqui, não’.
Pior que bala
Foi a ocorrência mais atípica que enfrentei em duas décadas de carreira. Estou acostumado a lidar com infratores da lei, mas jamais iria imaginar que seria atacado e vencido por abelhas. Elas, literalmente, me derrubaram. Levei picadas nas pernas, mãos, braços, tronco, rosto, cabeça e até no olho. Tenho ferrões pelo corpo até hoje. Os médicos tiraram três litros de líquido com veneno do meu corpo. Somente hoje (sexta-feira) minha mulher tirou mais de 40 ferrões da minha cabeça.
O retorno
Não sinto dor nenhuma mais. Só sinto a estrutura física fraca. A respiração está ofegante. Por causa do barulho das abelhas nos meus ouvidos, quando falo, a voz fica ecoando. No dia 16, eu tenho retorno médico. Ainda vou fazer alguns exames. Acredito que eu volte a trabalhar no começo do ano”.
Dejair Morilla Calmona Sobrinho, 43, cabo da Polícia Militar, em depoimento ao jornalista Edson Arantes
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