‘No que depender de mim, farei de tudo para melhorar a escola pública’


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Responsável por coordenar 69 escolas estaduais de toda a região, a nova dirigente de ensino assumiu o cargo em julho e em pouco tempo enfrentou a delicada situação da ocupação de alunos em duas escolas da rede
Responsável por coordenar 69 escolas estaduais de toda a região, a nova dirigente de ensino assumiu o cargo em julho e em pouco tempo enfrentou a delicada situação da ocupação de alunos em duas escolas da rede
Responsável por coordenar 69 escolas de Franca e cidades da região, desde julho deste ano, quando assumiu a diretoria regional de ensino, Maria Luiza Franco Nery Machado, 53, dedicou grande parte da sua vida à educação. Natural de São Paulo, a diretora mudou-se para Franca em 1987, quando começou a lecionar na cidade. Formada em música, língua e literatura inglesa, Maria Luiza teve como exemplos para seguir a profissão a mãe e a irmã mais velha, ambas professoras.
 
Com 28 anos de experiência no serviço público e 20 como professora universitária, todos eles na Unifran (Universidade de Franca), a diretora diz encarar com otimismo e esperança o desafio do novo cargo. Apesar de demonstrar orgulho de todas as unidades por onde passou, Maria Luiza cultiva um carinho especial pelas escolas “Jerônimo Barbosa Sandoval” e “Caetano Petráglia” sendo, respectivamente, a primeira na qual ela lecionou e a última em que foi a diretora. 
 
Hoje Maria Luiza, que confessa já ter se perguntado se o magistério seria mesmo o melhor caminho a seguir, se emociona ao falar da profissão e do amor que sente por ensinar. Entre os maiores sonhos e desejos está melhorar a qualidade de ensino, além de se aproximar das escolas e buscar o apoio efetivo dos profissionais, alunos e comunidade para amenizar as questões que hoje prejudicam o ensino público.
 
Dizendo não enxergar uma sociedade sem educação, a dirigente, que enfrentou recentemente movimentos de alunos contrários à reorganização de ciclos proposta pelo então secretário da Educação do Estado de São Paulo, Herman Voorwald, falou ao Comércio sobre suas expectativas para o cargo e não fugiu de temas polêmicos como a violência nas escolas, desvalorização dos professores e o ensino integral.
 
Por que a escolha pelo magistério?
Minha mãe e irmã eram educadoras e acabei seguindo o mesmo caminho. Fiz o magistério e me formei em 1979. Depois cursei música, língua e literatura inglesa. Quando ainda estava em São Paulo, minha cidade natal, prestei um concurso e anos depois fui chamada. Me casei e por 3 anos morei em Ribeirão Preto. Em 1987, me mudei para Franca e nunca mais saí daqui. A primeira escola na qual lecionei foi a “Jerônimo Barbosa Sandoval” na qual, anos depois, também fui diretora. Em alguns momentos, nesses 28 anos de serviço público, cheguei a me questionar se o magistério era realmente o melhor caminho, mas hoje tenho a plena certeza disso e me sinto muito realizada nessa profissão. Tenho um orgulho muito grande de estar onde estou como educadora.
 
Como surgiu a oportunidade de assumir a diretoria regional de ensino de Franca e região?
Alguns anos atrás, houve uma proposta de reestruturação da Secretaria da Educação, aliás esse projeto de reorganização vem ao encontro dessa proposta que deu início em 2011. Essa proposta de reestruturação previa mudanças na Secretaria e também nas Diretorias de Ensino. Naquele momento foi considerado que, mesmo os cargos de comissão, não deveriam ser apenas baseados na escolha do governador ou do secretário de Educação, mas sim a partir de uma prova. Assim foram aplicadas provas de certificação. Quando realizei essa prova nem imaginei o que aconteceria no futuro. Meu objetivo era testar meus conhecimentos e me atualizar. Fui aprovada e quando a dirigente decidiu se aposentar foram seguidos os trâmites previstos dentro dessa reestruturação. Foram chamados profissionais que tinham realizado a prova e alguns que, mesmo sem a certificação, demonstraram interesse em assumir o cargo. Realizamos uma entrevista pessoalmente com o então secretário de Educação, Herman Voorwald. Dez dias depois o resultado saiu e fui chamada para ocupar o cargo. Resolvi aceitar o desafio e agora estou como dirigente de ensino.
 
A senhora está nesse cargo há cerca de cinco meses. Qual a sua principal meta para as escolas de Franca e região?
Não tenho outra meta que não seja a melhoria da qualidade do nosso ensino. Investir na formação dos professores e dos gestores, buscando os investimentos que podemos proporcionar. Acredito que investindo na formação dos professores e gestores e, com isso refletindo nas salas de aulas, teremos uma melhoria na qualidade do processo de ensino e aprendizagem. Desde quando cheguei tenho conversado com todos os segmentos e já fizemos algumas alterações, por exemplo, na formação dos educadores e professores. Estamos mudando, principalmente, nos anos finais do ensino fundamental e no ensino médio, pois nos anos iniciais do ensino fundamental já temos resultados bem positivos. Como assumi no meio do ano, estou trabalhando com projetos que já estavam previstos e propostos para 2015. Para 2016 faremos um projeto para traçarmos nosso foco e nossa proposta. Porém, eu tenho visto coisas muito bonitas de projetos que já estavam previstos e estou encantada. Por conta da reorganização, não estou conseguindo visitar muito as escolas, mas quero no futuro conseguir estar mais presente nas escolas. Uma das minhas propostas é isso, me aproximar das escolas, conversar com os gestores, professores e ouvir os alunos, para assim ouvir todos os envolvidos e tentar melhorar. Sei que esse desejo é bem difícil, mas na medida do possível quero estreitar esse relacionamento.
 
Como a senhora enxerga a questão da violência no ambiente escolar? 
Acho que a violência acontece em todos os lugares e a escola está inserida em um contexto social e essa troca é recíproca, mas a sociedade tem uma interferência muito grande no contexto escolar. Não vejo que a violência seja uma coisa específica da escola. Ela acontece fruto também de uma realidade social que faz com que isso se projete ali na instituição. Tenho tido contato com as escolas, inclusive por causa dessa questão, porque as vezes essa violência não acontece na escola, mas acontece no entorno e acaba interferindo no trabalho escolar e a comunidade precisa tomar providências. Tenho entrado em contato também com muitos projetos interessantes e significativos que tentam amenizar e solucionar essa questão da violência. Temos uma parceria com a Pastoral da Educação e que tem resultados bem interessantes. Temos também a figura do professor mediador nas escolas para poder trabalhar com esse âmbito de soluções dos problemas, do diálogo, e que ajuda muito nesse aspecto.
 
A senhora acredita no ensino integral? Quais são os benefícios desse ensino?
Com certeza. Defendo o ensino e temos registrado experiências importantes. Em Franca, já temos o ensino integral e, a partir de 2016, teremos outra escola que trabalhará com ensino integral no ensino médio. Quando os alunos permanecem nos dois períodos os benefícios são enormes e os resultados dessas experiências mostram isso.
 
Como a senhora enxerga a superlotação de salas e o que fazer para diminuir a evasão escolar?
Nos últimos anos houve uma diminuição de alunos na rede pública. Existe uma resolução que determina a quantidade de alunos por sala de aula. No ensino fundamental nos anos iniciais são permitidos até 30 alunos em cada sala e nos anos finais 35. Já no ensino médio o limite é 40 alunos e isso deve ser respeitado, independente de qualquer coisa. Em relação à evasão escolar, sabemos que hoje o ensino público precisa, sim, de muitas melhorias e foco, mas trabalhamos para isso e acredito que estamos no rumo certo.
 
Hoje uma das questões mais polêmicas envolvendo a educação pública é a desvalorização do professor. A senhora acredita que é possível melhorar essa questão? 
Essa questão realmente aparece, é visível, e acredito que seja necessário nos reinventar. Devemos pensar mais sobre o processo educativo e sua importância e acreditar que somos essenciais e mostrar para a comunidade como isso é importante. A educação é necessária em todas as esferas e permeia todas as atividades humanas. A instituição precisa se olhar e encontrar caminhos. Sei que é complexo, mas precisamos nos reinventar e encontrar uma solução. É lamentável e triste essa desvalorização, pois precisamos do educador e não enxergo uma sociedade sem educação. 
 
Desde o lançamento do projeto de reorganização de ciclos nas escolas estaduais, o assunto é visto com certa resistência de uma forma geral. Como a senhora vê esse processo e quais seriam as vantagens e desvantagens das alterações nos segmentos?
Estamos organizando a mudança com uma projeção para o futuro. Vislumbramos melhorias para todos os segmentos, gestores, professores, alunos e até mesmo para os pais. Existe um levantamento do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais) que aponta que existe uma menor complexidade para o gestor trabalhar com segmento único. Além disso, os investimentos na formação dos professores poderão ser direcionados para cada faixa etária e pedagogicamente para o professor será melhor e ainda os alunos poderão conviver com a sua faixa etária e se beneficiar disso. Toda mudança causa transtorno, mas é preciso enxergar além e observar que essa mudança foi projetada para melhorar, assim como aconteceu anos atrás com a separação dos anos iniciais do ensino fundamental e hoje vemos os números positivos. Enxergo que, com a reorganização, teremos melhorias a longo, médio e curto prazo. Quero salientar que estamos trabalhando somente pelo melhor e, no que depender de mim, farei tudo o que for possível para melhorar a escola pública.
 
Hoje, com o adiamento da reorganização de ciclos e após todo o movimento de ocupação que, em Franca, mobilizou alunos de duas escolas, a senhora continua acreditando nos benefícios da reorganização escolar?
Mesmo com a suspensão da reorganização reforço que sou a favor de todos os benefícios que esse projeto promoverá para os estudantes e para o ensino público. Com o adiamento para as discussões em 2016, haverá mais tempo para que o projeto seja debatido e esclarecido para toda a população. Reitero ainda que a ação de reorganizar as escolas e salas de aula será muito benéfico para toda a comunidade escolar.

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