Fora das pistas, ‘herói olímpico’ trabalha com projetos sociais


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Medalhista olímpico em Atlanta e Sydney, o aposentado Edson Luciano busca se reconstruir profissionalmente em Franca. O ex-atleta desenvolve projetos esportivos para crianças carentes
Medalhista olímpico em Atlanta e Sydney, o aposentado Edson Luciano busca se reconstruir profissionalmente em Franca. O ex-atleta desenvolve projetos esportivos para crianças carentes
"Vamos Claudinei, tem que passar o cubano. Vamos que é prata, vamos Claudinei, vamos que é prata, é prata, é prata, é prata para o Brasil”. A narração do locutor esportivo Galvão Bueno está eternizada na história do atletismo brasileiro. No ano de 2000, durante os Jogos Olímpicos de Sydney, na Austrália, o quarteto composto por Vicente Lenilson, Edson Luciano, André Domingos e Claudinei Quirino, marcaram seus nomes no seleto grupo de heróis nacionais. Com a ultrapassagem sobre os cubanos nos segundos finais da prova, o Brasil chegou atrás somente dos Estados Unidos. De lá para cá, se passaram 15 anos da conquista no revezamento 4x100 metros rasos.
 
Aposentado das pistas, o destino colocou Franca no percurso de Edson Luciano Ribeiro. No município, o paranaense de Bandeirantes seguiu ligado ao esporte. Depois de comandar a equipe de atletismo de Franca, atualmente, Edson trabalha na elaboração de projetos sociais esportivos. Edson também participa de eventos, palestras e clínicas sobre a sua modalidade esportiva, levando para jovens, crianças e adultos um pouco da sua história de vida. 
 
Com 42 anos, Edson Luciano teve uma vida de luta. Filho de um pai mecânico e mãe zeladora, o atleta teve que trabalhar ainda novo para ajudar no sustento de casa. Na juventude, Edson trabalhou como lavador de carros, mecânico e frentista, antes de conhecer o atletismo. A vocação para modalidade foi descoberta aos 19 anos de idade, quando servia o Exército (Tiro de Guerra). Em uma competição entre os TGs, Edson Luciano se destacou na prova de atletismo. A partir daí, ‘acelerou os passos’ até alcançar o status de ‘herói’. 
 
Em 1994, mudou-se para Presidente Prudente para integrar a equipe que já contava com André Domingos. No ano seguinte, Edson Luciano era integrante do quarteto titular do revezamento 4x100m, no Campeonato Mundial de Gotemburgo (Suécia). Em 1996, em sua primeira Olimpíada, o velocista faturou a medalha de bronze em Atlanta, nos Estados Unidos.
 
Durante 12 anos de carreira profissional, Edson Luciano construiu a carreira no atletismo como um homem de equipe, brilhando nas provas de revezamentos. O atleta participou de três Olimpíadas, cinco Mundiais de Atletismo e três Jogos Pan-Americanos. 
 
No país do futebol, como surgiu o atletismo em sua vida?
Até tentei jogar futebol, mas não levava jeito para o esporte, pois corria mais que a bola (risos). Fui descoberto por um sargento durante meu alistamento no Tiro de Guerra, em Bandeirantes, no Paraná. Teve uma Olimpíada do Tiro de Guerra e me destaquei no atletismo e ganhei de um dos favoritos na prova dos 100 metros. Lembro que o competidor já era atleta e tinha vencido uma prova de Sul-Americano de Atletismo. Todos ficaram espantados e curiosos. A partir daí, meu sargento acabou me lançando como atleta e fez alguns contatos. Isso foi em 92 e quatro anos depois eu estava disputando minha primeira Olimpíada e conquistando a medalha de bronze.
 
Você tem dois feitos históricos ao obter duas medalhas (prata e bronze) em Olimpíadas. Foram as duas principais conquistas de sua carreira?
Conquistas olímpicas sim, mas obtive outras conquistas marcantes ao longo da minha carreira, como as medalhas de prata e bronze, em Mundiais, e dois ouros nos Jogos Pan-Americanos. Tive a oportunidade de disputar três Olimpíadas, cinco Mundiais e dois Pan-Americanos. Posso garantir que são as seis medalhas mais importantes da minha carreira, que durou 12 anos.  
 
Como foi lidar com a questão de doping por parte da equipe americana, na final da prova dos 4x100m, em Sidney?
Essa questão foi complicada. O atleta (Tim Montgomery) estava preso e, em uma matéria para o canal HBO, ele falou de tudo que fez em sua vida e principalmente do uso do THG (tetrahidrogestrinona - substância usada para ganhar massa muscular e melhorar o desempenho em competições) na Olimpíada de 2000, que foi o escândalo. Os norte-americanos só venceram por causa de uso ilícito. O Brasil era a melhor equipe naquela prova, mas fomos privados de subir no lugar mais alto do pódio e ouvir o hino nacional. A medalha de prata foi maravilhosa e me proporcionou tudo em minha vida. Fico imaginando como seria se fosse com a medalha de ouro. A gente espera que se faça justiça.
 
Como ficou essa questão da medalha? Vocês vão recorrer ao Comitê Olímpico Internacional para herdar a medalha de ouro da prova de revezamento?
A Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt) entrou com recurso, e nós atletas, com advogados particulares para rever o caso. Quando Tim Montgomery deu a declaração, em outubro de 2009, tinha ultrapassado os oito anos permitidos para recorrer do resultado. Falta um estágio para o processo. Só que o país se envolveu na Olimpíada não houve mais interesse no caso. Há tempo ainda e nós queremos nossa medalha de ouro e vamos em busca do que é nosso.
 
Em algum momento da sua carreira, foi oferecida a você alguma substância ilícita para melhorar seu rendimento nas provas?
Dentro do esporte essas situações ilícitas estão como na vida real. A qualquer momento você pode esbarrar com isso. Dentro do esporte, é possível atletas se deparar com essas substâncias. Como qualquer modalidade, a questão da mídia e marketing pela quebra de recordes, e avanços laboratoriais, induz o competidor a seguir esse caminho na busca de um novo herói. Essa situação desmotiva o esporte. Tem que acabar com esse lado político. Se não, sempre surgirá a desconfiança do uso de substâncias. Posso garantir que no meu caso não teve nada disso. Fui no arroz e feijão mesmo. Não tive grandes resultados em minha carreira individual. As minhas marcas são 10s14 (nos 100 metros rasos) e 20s46 (nos 200m). Hoje se corre abaixo dos 20s. O Bolt detém os recordes com 9s58 e 19s19.
 
Em 2016, o país vai receber os Jogos Olímpicos, no Rio de Janeiro. Na sua visão, o Brasil está preparado para sediar uma Olimpíada?
Na minha visão de atleta ainda faltam algumas coisas. Um país está preparado para a Olimpíada com oito anos de antecedência. Pequim, quando soube (em 1996) que seria sede em 2008, em 2000 já estava com tudo pronto e por isso foi aquele espetáculo. Estamos há menos de 300 dias e existem problemas. Fatores de organização, de construções e políticas. Pode resolver até lá, mas não era para ser assim. Era para o Brasil estar sediando Mundial de Ginástica (Glasglow-Escócia) aqui, Atletismo (Pequim-China) e Natação (Kazan-Rússia).
 
Você acha que o Brasil tem bons nomes no atletismo? Quem pode surpreender no Rio 2016 e brigar por lugar no pódio?
Temos alguns nomes com chances de subir no pódio. Dentro do tamanho do nosso país e pelo investimento, era para ter mais. O atletismo possui várias modalidades e as chances poderiam ser maiores. Podemos citar a Fabiana Murer (salto com vara), Duda (salto distância), revezamento feminino 4x100m. Chances. Isso não significa que vão ganhar medalha. A Confederação Olímpica Brasileira faz promessas de que estaremos no Top Ten da classificação. Acho difícil. 
 
O atletismo brasileiro parou no tempo? Nos Jogos Pan-Americanos de Toronto deste ano, a delegação desembarcou com o pior resultado dos últimos 44 anos na competição. O que falta para o país ter mais atletas de qualidade nas modalidades?
Não diria que parou no tempo. Diria que houve uma inversão de valores, pegou os recursos para aplicar no alto rendimento. Pode dar frutos como pode não dar. Nossa base ficou desprotegida e sem perspectiva. Todos estão pensando em medalhas e Olimpíadas e esquecendo o atleta em formação. O reflexo pode vir de forma negativa em 2020, e talvez teremos apenas aquilo que conseguimos plantar em 2016, e consequentemente terá uma queda. 
 
Qual foi a maior dificuldade encontrada por você ao longo dos seus 12 anos de carreira profissional no atletismo?
Dificuldades são muitas, mas a maior delas é a falta de patrocínio. Porque em um ano você tem, no outro, você vai ter que roer o osso. O patrocinador surge diante as grandes competições como as Olimpíadas e Mundiais. Nos outros anos, o atleta fica desprotegido e tem que caminhar sozinho. Esse posso dizer que foi o maior problema enfrentado como atleta. Saí de uma Olimpíada em 2004, onde terminei em sexto lugar e recebi a notícia que meu clube no país não existia mais. Decidi encerrar minha carreira com 31 anos. O atleta fica se batendo sem saber o que vai ser. O César Cielo, por exemplo, foi mantido pelos próprios pais nos Estados Unidos até surgirem os resultados e patrocinadores. São barreiras que temos que enfrentar e superar para modificarmos nossas histórias. 
 
Como é sua vida hoje fora das pistas? 
Hoje minha vida é mais simples. Depois de largar a corrida, bati um pouco a cabeça até resolver o que faria na minha vida. Moro aqui em Franca, onde fui casado e tenho um filho. Me formei em Educação Física, e abri um escritório voltado ao desenvolvimento de projetos esportivos através do ICMS e imposto de renda. Me sinto satisfeito em trabalhar naquilo que gosto. Meu “peixe” é o atletismo, mas desenvolvo junto com meu parceiro de empresa outras modalidades como futebol, vôlei, basquete, natação, futsal, taekwondo, judô, entre outros. Hoje trabalho com projetos em cidades como Pindamonhangaba, Guariba, Guaíra, Mogi das Cruzes, São Caetano, Jaú, Buritizal, São Joaquim da Barra e Foz do Iguaçu. Graças ao esporte, consegui fazer vários contatos.
 
Você enumerou vários locais onde desenvolve projeto social. Como reside em Franca, porque o município não tem nenhum projeto nos bairros?
Não consegui fazer aqui. A Feac (Fundação para Esporte, Arte e Cultura) é um órgão difícil de intermediar “amarrações” na captura de empresários. Quando ofereci o projeto, em um primeiro momento tentaram atravessar. Não houve interesse por parte deles de implantarem o projeto aqui. O engraçado é conseguir desenvolver esse projeto em outras localidades. Tenho projeto patrocinado pela Caixa Econômica Federal, aqui bem próximo, em São Joaquim da Barra. Lá, o projeto tem destaque na cidade e mídia local e conseguimos levantar R$ 180 mil por ano para atender 120 crianças, com uma estrutura e suporte menores dos que Franca tem.
 
Você foi treinador da equipe de atletismo de Franca, mas acabou substituído no cargo. Porque isso aconteceu? Existe alguma rusga?
Do nada, em certo momento, foi colocado de lado, como se não servisse mais. Nem fui comunicado do meu afastamento. Cheguei na pista para dar aula e me deparei com o local fechado. Procurei saber o motivo e fui informado apenas que haveria mudanças no quadro de funcionários. A partir daquele dia, não busquei mais saber. Não sou natural de Franca e não estou pedindo favor para ninguém, mas sou mais bem tratado fora daqui. Mas nada impede algum empresário que tenha interesse em implantar um projeto social em algum bairro da cidade, me procurar para discutirmos todo procedimento.

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