Asa quebrada


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O voo interrompido: quebrou-se uma asa. A outra asa tenta restaurar o prumo, inutilmente. Agita-se, mas não levanta o corpo, que pesa mais do que deveria.
Algo misterioso se quebrou, e tudo, no repente , ficou imobilizado.

Há um tempo necessário de reabilitação... mas, enquanto não acontece, há que ter delicadeza e paciência.
Mas, como ter paciência, se o espírito está encarcerado, impotente, e confuso?

Os caminhos que surgem, alternativos, não podem ser trilhados na base do palmilhar a pé, tateando a terra, buscando aprendizado por tentativa-e-erro, por ter sido maré forte de tristes acontecimentos que abalaram a fé, a confiança, a alegria.

Na escura tristeza e confusão, a asa quebrada é o convite para imobilização e meditação. Nenhuma ação possível, a não ser restaurar a imaginação, clarear o espírito sombrio, verificar as condições de restabelecimento da vida e da energia.

Asa quebrada é a imagem materializada da vulnerável condição humana: às vezes somos de aço, às vezes de vidro. Resilientes, por vezes, e náufragos descrentes em um resgate que se nos parece milagroso.

Discernir as miragens das percepções úteis e certeiras, quando há quebra de asas, é tarefa minuciosa e doída. A realidade se nos parece espelho dos sentimentos-nuvens que nos atravessam. Se as nuvens são negras e tempestuosas, assim vemos a realidade.

Melhor esperar o tempo de volver a voar: o tempo que seja necessário, aqui, onde ainda é possível recolher as asas para um futuro incerto.

Não esquecer que asas se quebram, quando o voo exige demais do espírito pássaro. Não esquecer o devido cuidado para que elas se regenerem.
 

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