A onda de lama da mineradora Samarco chegou com tudo ao oceano Atlântico, há 15dias formando uma enorme mancha marrom que se projetava quilômetros mar adentro desde a foz do Rio Doce, em Linhares, no norte do Espírito Santo.
A área afetada faz parte da Reserva Biológica de Comboios, que é de proteção costeira, usada para desova de tartarugas-marinhas, incluindo a tartaruga-de-couro, uma espécie ameaçada de extinção. O coordenador nacional do Centro de preservação das tartarugas, Joca Thome, sobrevoou a mancha e voltou para terra emocionado. “Nem sei o que falar. É terrível; uma calamidade”, disse, após sair do helicóptero. “Parece uma gelatina marrom se esparramando mar adentro”, falou.
A onda de lama percorreu 650 km de rio desde o rompimento da barragem de Samarco, em Mariana (MG), no dia 5. O desastre deixou 10 mortos identificados e 11 pessoas desaparecidas. Chegou à costa capixaba no pico da época de desova das tartarugas. Equipes do Tamar vinham retirando diariamente da praia de Regência – distrito de Linhares – os ovos colocados pelas tartarugas, numa média de 40 ninhos por noite. O local continuará a ser monitorado, para ver como as tartarugas reagem à presença da lama.
No domingo mesmo, pesquisadores do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade já recolhiam peixes mortos na desembocadura do rio. Analisando os animais manualmente era possível ver claramente que suas guelras estavam impregnadas de lama. O “entupimento” das brânquias pela lama impede os peixes de respirar e eles morrem asfixiados.
A mortandade de peixes, porém, é apenas “uma pontinha do iceberg”, segundo o biólogo Paulo Ceccarelli. O problema maior, e de mais longo prazo, é a extinção do plâncton e de outros pequenos organismos que formam a base da cadeia alimentar, que terá um efeito cascata sobre todo o ecossistema, impactando desde os herbívoros aquáticos até os carnívoros terrestres.
Para piorar a situação, é época de desova no Rio Doce, o que significa que, para cada peixe ovado que morrer, outras dezenas ou até centenas de peixinhos deixarão de nascer. E mesmo que nasçam, não haverá plâncton, algas ou pequenos crustáceos na água para eles se alimentarem. Sem peixes, faltará alimento para outros animais, como garças e lontras, e assim por diante. “Cada vida que é extinta do ecossistema leva muitas outras junto”, sentencia o pesquisador.
A catástrofe ambiental de Mariana foi provocada pelo homem. Isso é muito triste.
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