Participei do VII Colóquio do ERA (Grupo de Estudos Retóricos e Argumentativos) da Pontifícia Universidade Católica. Este ano, o tema foi Instituição do Discurso Feminino. Compartilhei pesquisa sobre as músicas Sou Foda, interpretada por Carlos e Jader, e Coitado, interpretada por Naiara Azevedo.
Naiara desconstroi o homem viril e garanhão cantado por Carlos e Jader. Discute o ponto que o homem considera essencial para sua ‘qualificação’ — sua virilidade, sua potência sexual. Torna-o ‘coitado’, digno de pena, dó, desprezo, reduzido a nada, pouco viril, sem essa ‘qualificação’. Está explícito na frase ‘se acha muito macho’. Se mulher não encontra no homem as qualidades esperadas, pois ‘macho’ ele não é, utiliza-o como ‘capacho’ e impinge fama de chifrudo. Constroi-se o ethos feminimo e desconstroi-se o ethos masculino no jogo discursivo das músicas.
Alunos do Curso de Direito da Unifran, Cristiane Maria Nascimento Cardoso e Willian de Jesus Alencar Coelho apresentaram comigo outra pesquisa — feminicídio, recentemente tipificado na Lei 13.104 de 09 de março de 2015. Refletimos se as leis que compõem o ordenamento jurídico desconstroem o discurso feminista da mulher contemporânea, no qual ela é dotada de poder, inclusive discursivo. Instigante o momento em que uma das participantes, integrante do movimento feminista, questionou o feminicídio. Seguiu-se rico debate de conhecimento, ideologias, necessidade de desenvolver sociedade justa, solidária e igualitária. Fortíssima, a frase dela: ‘sou casada com meu opressor, e ele é casado com sua opressora’.
Ela é branca, e casou-se com negro (opressão do branco em face do negro); Ele é homem e ela é mulher (opressão do homem em face da mulher). A frase dela também conduz a reflexão sobre jogo de poder entre discurso dominante e discurso instituinte, o novo que deseja mitigar a força do dominante. Esse embate se dá por motivos ideológicos, culturais, sociais etc., e estão materializados nas leis, em músicas, conversas, em pesquisas. A retórica é excelente suporte teórico para embasar essas análises.
Acir de Matos Gomes
Advogado, professor universitário na Unifran/Cruzeiro do Sul
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