Já falamos algumas vezes neste Clubinho sobre Malala, a menina paquistanesa que foi vítima do ódio do Taliban apenas por querer estudar. No seu país, o Paquistão, a religião majoritária é o Islamismo. Dentro do Islamismo, o Taliban é um grupo à parte, de religiosos extremados que interpretam o Corão, a Bíblia dos muçulmanos, de uma forma autoritária e violenta. Dentro da ideologia do Talibã, mulheres não têm nenhum valor, devem ser mantidas dentro de casa, só saem às ruas acompanhadas de homens de sua família. Seus cabelos não podem ser exibidos em público e elas devem manter a cabeça sempre coberta por um véu. Não têm direito de serem alfabetizadas.
Malala, filha de um professor, recusou-se a cumprir a ordem de um mulá ( tipo de sacerdote local) e foi baleada a caminho de sua escola, junto a outras meninas. Ela ficou entre a vida e a morte, mas se salvou. As balas que atingiram seu rosto, deixaram sequelas. O tiro esfacelou parte de seu crânio e os ossos partidos entraram no cérebro e danificaram parte dele. Ela perdeu a audição de um ouvido e tem problemas para mover os músculos da face.
No filme, um documentário, Malala é a protagonista de um cotidiano parecido ao de outras meninas de sua idade, 17 anos. Há brincadeiras com o irmão mais novo, jogos de cartas, refeições com a família, passeios, familiaridade com a Internet. A mãe também aparece, mas ocupa segundo plano. O pai está mais presente no filme e diz que Malala não foi atingida por um indivíduo, empunhando o revólver, mas por uma ideologia- a do Islã do ódio, o Talibã. Sob este aspecto, o filme é importante porque explica às pessoas que o Talibã, como a Al Qaeda (que destruiu as Torres Gêmeas, em Nova York, em 2001) e o Estado Islâmico ( que matou 130 pessoas e feriu outras 300 nos ataques de Paris, no dia 13 de novembro último), é uma exceção entre os milhões de muçulmanos que vivem no mundo.
“ Alá, o Deus dos muçulmanos, é misericordioso no Corão”, diz o pai de Malala. E completa: “Mas os que hoje empunham o livro sagrado em seu nome fazem dele o terror dos que professam outras crenças.” Para os terroristas chamados jihadistas, Alá é sanguinário. Por isso eles queimam escolas para impedir meninas de estudar. Há 14 anos, atacaram os EUA e destruíram as Torres Gêmeas e outros edifícios norte-americanos. Em Paris, há 12 dias, fizeram mais de uma centena de vítimas numa sucessão de atentados. A esse comportamento que inspira os terroristas chamamos “fanatismo religioso”.
No cenário em que agem os terroristas islâmicos, a figura de Malala e sua luta são admiráveis. Ela conseguiu reunir forças para resistir e enfrentar o autoritarismo graças, em grande parte, à influência de seu pai, que achou que a filha merecia ter uma educação. E isso desde que ela nasceu e ele lhe deu o nome de Malala, que foi uma heroína do povo afegão. A primeira Malala liderou guerreiros em fuga e transformou uma derrota contra os ingleses em vitória. Mas só o nome não faria da segunda Malala o que ela é. Malala Yousafzai, que hoje tem 17 anos e vive em Londres com sua família, fez suas escolhas. Ela optou pelo caminho da educação, da verdade, da vida. Foi agraciada com o Prêmio Nobel da Paz, em 2014. Deverá ainda enfrentar muitos desafios mostrados pelo documentário, que tem entrevistas, mas também animação e material de arquivo.
O título original em inglês é: Ele me chamou Malala, em clara referência à escolha do pai, num país onde o nascimento de uma menina é lastimado e não comemorado. O pai de Malala celebrou sua chegada ao mundo e isso pode ter feito toda diferença. O diretor do documentário é o famoso Davis Guggenheim.
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