Camões contou esta história. Bocage também. Camões (1524-1580) e Bocage (1765-1805) foram dois grandes escritores portugueses. A história em questão tem como protagonista Inês de Castro (1325-1355). Galega (este o adjetivo para quem nasce na Galiza), a jovem chegou a Portugal para ser ama da princesa Constança, casada com o príncipe Pedro I. As amas eram jovens companhias das princesas e rainhas. Viviam na Corte (lugar onde morava a nobreza) e deveriam ter educação esmerada para conviver com os nobres. Pedro se apaixonou pela ama e foi correspondido. Naquela época e naquele país não existia divórcio. Entre a nobreza então, nem pensar em separação, pois havia muitos outros interesses além do amor no casamento.
Então Inês e Pedro viveram juntos e tiveram quatro filhos.
Quem não gostou nada da ideia foi o pai de Pedro, Dom Afonso VI. Para evitar que o filho continuasse vinculado à Ana, mandou matá-la. Pedro quase ficou louco e passou a odiar o pai. Depois da morte deste, tornou-se rei e, ainda perturbado pelo assassinato, mandou desenterrar Ana, colocou o cadáver num trono e oficializou o casamento. E mais: ordenou que todos os súditos entrassem na fila para beijar a mão da morta. Por causa dessa cena, Camões escreveu que Ana, “depois de morta, foi rainha.” A tragédia também deu origem à expressão “Agora Inês é morta”, no sentido de que nada mais se pode fazer diante de uma situação finita. Esta história acaba de ganhar nova e bela versão literária. Seus autores são dois celebrados autores da literatura infantil brasileira – Roger Mello e Mariana Massarani. Quem faz o lançamento é a editora Companhia das Letrinhas.
Ganhador do Prêmio Hans Christian Andersen, na categoria ilustração, Mello deixou os desenhos de lado de dedicou-se ao texto. Em Inês, a história é narrada sob o ponto de vista de Beatriz, a única menina dos quatro filhos de Pedro e Inês. Temas perturbadores como traição e assassinato são contados sob a forma de poesia para os leitores mirins. Mariana, parceira de Mello, é a ilustradora da obra que mostra os fatos também por meio das imagens. O universo retratado é o do século 14, com reis e rainhas, príncipes e princesas, castelos, súditos e espadas.
Enfim, uma beleza de livro.
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