Vaticano começa a julgar jornalistas acusados de vazar documentos


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Dois livros revelam também a resistência interna contra as reformas propostas pelo papa Francisco
Dois livros revelam também a resistência interna contra as reformas propostas pelo papa Francisco

O Vaticano inicia nesta terça-feira (24) o julgamento de cinco pessoas, incluindo dois jornalistas italianos e um padre espanhol, acusadas de divulgar documentos confidenciais que revelam a corrupção na Santa Sé.

O julgamento acontecerá na sala do tribunal do Vaticano na presença da imprensa e terá poucas audiências.

Os dois jornalistas, Gianluigi Nuzzi e Emiliano Fittipaldi, autores de livros sobre a corrupção na Cúria Romana, lançados em 5 de novembro, são acusados de divulgação ilícita de documentos confidenciais. Os livros se basearam em documentos, gravações, e-mails, atas de reuniões e fotos subtraídas dos arquivos do Vaticano.

Os dois livros -"Via Crucis", de Nuzzi, e "Avarizia" (avareza), de Fittipaldi- revelam também a resistência interna contra as reformas propostas pelo papa Francisco.

Esta é a primeira vez que o Vaticano processa jornalistas. O julgamento foi classificado pela imprensa italiana como uma "nova Inquisição".

Depois de negar-se na semana passada a comparecer ante a polícia do Vaticano, Nuzzi anunciou na segunda-feira (23) em um comunicado que assistiria à audiência, apesar de o Vaticano não ter leis que garantam a liberdade de imprensa e proteção das fontes.

Fittipaldi, da revista italiana "L'Espresso", também prometeu participar da audiência, e disse que "vazar documentos é algo constante em toda democracia".

"Achei que investigariam os acusados de atividades delituosas, não as pessoas que denunciaram os delitos", comentou em uma coletiva de imprensa.

A Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), da qual a Santa Sé é membro, pediu na segunda-feira (23) ao Vaticano que retire as acusações contra os jornalistas, afirmando que eles têm direito de cobrir temas de interesse público e de proteger suas fontes.

Além dos dois jornalistas, serão julgados o padre espanhol Lucio Ángel Vallejo Balda, 54, a consultora italiana Francesca Immacolata Chaouqui, 34, e um colaborador de Vallejo, Nicola Maio, 37, acusados de "formação de quadrilha" com o objetivo de divulgar notícias e documentos que afetam os interesses da Santa Sé.

Vallejo é membro da Opus Dei e foi secretário da extinta Comissão de Estudo sobre a Organização das Estruturas Econômicas e Administrativas da Santa Sé (COSEA), de onde provém a maior parte dos documentos vazados. Ele é o único dos acusados que se encontra, desde 2 de novembro, detido em uma cela no Vaticano -Chaouqui chegou a ser presa, mas foi liberada em seguida.

VATILEAKS
O escândalo de vazamento de dados da Santa Sé, "Vatileaks", foi revelado em 2012, sob o pontificado de Bento 16. Seu mordomo, Paolo Gabriele, foi acusado de roubar documentos do escritório do papa e condenado a 18 meses de prisão, mas foi perdoado pelo pontífice.

Na época, Nuzzi escreveu um livro que compila as cartas pessoais do pontífice roubadas pelo ex-mordomo. O repórter de TV não foi julgado na ocasião porque o vazamento de informações ainda não era um crime no Vaticano.

A divulgação de documentos reservados "contra a segurança do Estado" foi introduzida como delito no Código Penal da Santa Sé pelo papa Francisco em julho de 2013. Quem comete este delito está sujeito a uma pena de quatro a oito anos de prisão.

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