Cativar


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A mágica de ser professor não está unicamente vinculada à prática de ensinar, mas essencialmente à arte de aprender. Particularmente, não fui eu que escolhi ser professora, mas foram minhas ambições de descoberta pelas coisas do mundo e pela paixão do que posso aprender com as pessoas que me fizeram tomar esta escolha: como se precisasse engolir cada gotinha de conhecimento delas; como se quisesse aprender com cada detalhe; sugar tudo que uma relação pode me oferecer dentro desta jornada.

Com este intuito, no ano de 2012 dei aula de história numa escola num bairro periférico de Franca-SP. Nunca gostei de ficar na sala dos professores no recreio dos alunos, prefiro me envolver jogando bola com eles, ou dividindo a merenda. A sala de professores, quase sempre, é um ambiente mórbido, onde mestres movidos pela desmotivação fazem comentários sórdidos sobre situações terríveis. Ou pior, temos que ouvir aqueles que querem discutir políticas educativas de forma muito vazia, como se a solução fosse a tortura de alguns alunos, e, com esta forma, eu definitivamente não compactuo. Porém, certo dia, não me lembro bem por quê, decidi permanecer naquele ambiente durante o intervalo.

No material que eu usava com os alunos havia um caderno com a capa semelhante à do livro O Pequeno Príncipe, de Antoine Saint-Exupéry. Eu estava com ele sobre a mesa, quando uma das coordenadoras viu e abraçou o caderno instintivamente. Olhei assustada, procurando motivos dentro de meus pensamentos que justificassem aquela situação. Porém, antes que eu indagasse, ela começou a falar:

“Eu amo este livro! O Pequeno Príncipe foi um dos livros mais lindos que já li. Ganhei de presente do meu marido quando ainda éramos noivos. Esta é uma memória linda para nós, muito importante para mim e para ele. Eu perdi o livro entre nossas mudanças e nunca mais achei.”

Imediatamente, me lembrei da situação em que eu havia lido O Pequeno Príncipe. Minha avó acabara de alçar voo da Terra e ir morar com os anjos, e entre meus pensamentos morava muito forte a ideia do eterno cativo.

Naquele mesmo dia, sem mesmo saber o nome daquela senhora, fui em busca do livro para presenteá-la. Procurei em livrarias, sebos, bancas e não o encontrei. Porém, não sei bem por que essas coisas acontecem, sentei no chão do corredor da faculdade com o pensamento focado neste fato. E então um dos grandes amigos que eu havia feito na graduação ia embora de Franca e veio me oferecer os livros que estava vendendo. Perguntei se ele tinha O Pequeno Príncipe e ele respondeu que sim. No dia seguinte eu já tinha o presente da senhora em mãos.

Fiz uma dedicatória bem bonita e sincera. Coloquei muito de mim dentro daquele pequeno texto que envolvia a contracapa, com palavras que diziam sobre sentimentos, sobre a saudade, e sobre um companheirismo sincero. Cheguei atrasada para dar aula naquele dia, encontrei a senhora no corredor, encostei o livro nos seus dedos e disse:

- Este é um presente para você e para seu esposo.

Fui para minha aula com uma felicidade insuportável que quase não cabia em minha caixa torácica. Eu havia feito uma pessoa feliz. Eu havia entendido um sinal do universo de compartilhar um pouco de felicidade e poesia.

Uma semana depois da entrega do presente, mais uma vez, eu entrava atrasada pelo corredor, quando ouvi:

- Professora? Professora!

Olhei para trás e lá estava a senhora, levemente emocionada. Esperei que ela chegasse até mim. Um professor que também é muito meu amigo observava a situação. Os olhos da senhora estavam completamente marejados, como se fosse possível colocar pequenos barquinhos de papel dentro de suas pupilas. 

-Você me deu aquele livro na semana passada. Você não me conhece, e me deu aquele livro que foi tão importante para mim e para meu marido. Nós lemos juntos na quinta-feira, nos divertimos, nos lembramos do nosso noivado e do início de nosso casamento. Ele ficou agradecido. Mas ele estava sofrendo muito, estava com câncer terminal, e no final de semana ele morreu. Obrigada.

Fiquei imóvel, sentindo o abraço da senhora, que muito chorava. Sentia que não era um choro de dor, muito menos de revolta ou incompreensão. Era um choro de gratidão, não a mim ou ao livro, afinal, sei que nós duas sabíamos que dentro daquela situação éramos meros joguetes de um acaso lindo e cheio de amor onde o “cativar” fazia todo sentido.
 

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