A ex-diretora-clínica do Pronto-socorro “Álvaro Azzuz”, a médica Cláudia Poubel, prestou depoimento nessa quinta-feira à CEI (Comissão Especial de Inquérito) aberta pela Câmara Municipal para apurar a ação de uma quadrilha de falsos médicos e os contratos assinados pela Prefeitura com o ICV (Instituto Ciências da Vida), responsável pela contratação dos falsários. Ela disse que denunciou o esquema de plantões fantasmas à Secretaria de Saúde e, no dia seguinte, foi avisada que seria transferida do PS.
Durante quase uma hora, Cláudia reafirmou tudo o que já havia dito ao promotor de Justiça, Paulo César Corrêa Borges, que move uma ação contra o ICV, o prefeito Alexandre Ferreira (PSDB) e a secretária municipal de Saúde, Rosane Moscardini.
Ela contou que foi pega de surpresa com a chegada dos médicos do Instituto no PS, em junho do ano passado. “Nós, servidores, não fomos informados de nada. Eu era a diretora-clínica e só tomei conhecimento da chegada do ICV porque o Daniel Gutierrez, que era o coordenador do Instituto, veio me avisar. Da parte da Prefeitura, não houve comunicado algum.”
Ela disse que logo que chegaram, os médicos do ICV - entre eles estava o falsário Pablo Mussolin, que se passava à época por Pablo Galvão - tomaram conta do quarto de descanso que deveria ser um espaço comum. “Eles até trocaram a fechadura. Compraram geladeira, fogão e transformaram o quarto em um hotel. Moravam todos lá dentro do pronto-socorro.”
Ela conta que, como o descanso estava ocupado pelo ICV, os médicos da Prefeitura não tinham onde descansar. “Foi uma guerra mesmo, porque eles (do ICV) não deixavam ninguém entrar.”
A ex-diretora também contou como descobriu o esquema dos plantões fantasmas. “Eu fui comunicada por uma enfermeira que as fichas de atendimento de um dos médicos do ICV não estavam com o nome e o carimbo dele, mas, sim, de dois outros médicos que, sequer, estavam prestando serviço naquele dia. Achei estranho e resolvi confirmar. De fato, ele estava carimbando o nome de outros dois profissionais.”
Segundo Cláudia, ela não foi a única a flagrar o esquema. “O Renato Del Bianco, diretor-técnico, e o Ricardo Veríssimo, diretor-administrativo, também tinham conhecimento. Então, fizemos um pente-fino e encontramos entre 20 e 30 fichas adulteradas. Ligamos para a secretária (Rosane Moscardini), que nos mandou encaminhar todo material em envelope lacrado. Foi o que fizemos.”
Questionada sobre qual teria sido a atitude da secretária diante da grave denúncia, Cláudia disse que nada foi feito. “Entregamos tudo para a secretária da Rosane e liguei para confirmar que ela tinha recebido o material. Ela me respondeu que tomaria providências. Mas no dia seguinte, à noite, enquanto eu trabalhava no Pronto-socorro, recebi de um motorista da Prefeitura a ordem de transferência, me dando 48 horas para deixar o PS.”
Cláudia disse desconhecer qualquer punição ao médico flagrado. Ela também contou que, depois que saiu do PS, vários outros servidores a procuraram para denunciar a mesma prática. “Mas, como eu não tinha provas do que estava acontecendo, não tenho como acusar ninguém.”
Além de Cláudia, ontem a aposentada Leila Maria Dib Rodrigues também prestou depoimento. Ela disse que foi atendida por um dos falsos médicos que acabou não identificando problemas em sua coluna, mas não soube precisar o nome do falsário que a teria atendido.
Para o presidente da CEI, o vereador Márcio do Flórida (PT), o depoimento de Cláudia é “estarrecedor”. “É a confirmação da total falta de fiscalização. Todas as afirmações são muito graves e serão apuradas.” Para a próxima semana, o vereador afirmou que devem ser convocados mais dois servidores citados nos depoimentos. “Os nomes, ainda vamos definir em reunião”, disse o vereador.
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