Síria: um ‘paraíso’ do passado na vida de um casal que teme a guerra no país


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Marcelo e Lorena  no país árabe
Marcelo e Lorena no país árabe
Imagine que, durante um princípio de rebelião, você e sua família partam em férias para uma viagem ao exterior - na intenção de que tudo se acalme - carregando apenas três malas e, em duas semanas, descubra que não há mais um lar à sua espera no local de onde partiram. Fotos, roupas, objetos, dinheiro, carro, carreira, amigos. Nada. A hipótese parece absurda para os brasileiros que nunca vivenciaram a guerra, mas é uma dura realidade enfrentada pelo casal Lorena e Marcelo Correa, que viviam na Síria e atualmente residem em Franca.
 
Marcelo é francano e, assim como o pai, Robertão, se dedicou ao basquete. Após cinco anos jogando nos Estados Unidos, foi para a Síria, onde viveu por seis anos. Durante um jogo no Uruguai, conheceu a mulher, Lorena, com quem teve dois filhos. De acordo com a família, entre 2006 e 2011, a vida no país árabe foi de felicidade, realizações e paz. 
 
“Eu morei quatro anos na Síria e esse tempo de paz foi muito lindo. O povo sírio nos tratou sempre muito bem, nos acolheu”, disse Lorena. “A Síria era livre. Eu, por exemplo, nunca usei burca, podia usar minha cruz (ela é católica) e saía tranquilamente pela cidade. Nunca fui constrangida. Estávamos em nosso apartamento novo, tudo lindo, e com nosso filho que, na época, tinha 1 ano”.
 
O cenário da lembrança da uruguaia é muito diferente do atual. Hoje, bombardeios, fome, desemprego, miséria e terrorismo assolam civis que tentam escapar do país em travessias perigosas - como a que resultou na morte do pequeno sírio Aylan Kurdi, em setembro deste ano. De acordo com a ONU, 13,5 milhões de pessoas precisam de assistência ou proteção humanitária no país.
 
O casal não chegou a presenciar toda catástrofe. Ficaram na Síria até 2012, um ano após o início da Primavera Árabe, o levante contra regimes autoritários, mas não impediu que a guerra tivesse fortes efeitos sobre eles. “Tudo começou a mudar em 2011”, afirmou Marcelo. “Na Síria, a energia é comprada principalmente da Turquia e, quando aquele país passou a apoiar os rebeldes, a energia começou a nos faltar. Então, no verão - quando era comum haver duas horas de corte de energia por dia - começamos a passar até oito horas sem. Logo veio o corte de água e os produtos de supermercado começaram a ficar bem mais caros. Viajar também ficou complicado até para o meu time de basquete. Então, vimos perigo em não haver a segunda etapa do campeonato.”
 
Mesmo assim, a ameaça ainda estava longe de Alepo, cidade desenvolvida economicamente em que eles vivam. Os “barulhos” se concentravam nas cidades que faziam fronteira com Irã e Iraque. “A situação de violência não havia chegado com força a Alepo quando viemos embora, mas já escutávamos aviões sobrevoando nossa casa. Saímos quando houve o primeiro ataque à cidade: a explosão de um carro bomba”, disse Marcelo. Ainda de acordo com ele, a intenção de sair do país era apenas a de tirar férias, na esperança de que tudo se acalmasse, e retornar a Síria. “Nosso apartamento ficou lá: com fotos, roupas, dinheiro, carro. Nem sabemos se nossa casa ainda existe após os ataques”, disse Lorena.
 
Os ataques e os amigos
As notícias sobre a Síria abalam o casal. Pare eles, os cenários de ruas, casas e monumentos hoje destruídos e que para os brasileiros parecem “abstratos”, para Marcelo e Lorena são seu passado. “Aqui, a notícia chega e tudo é muito teórico. Mas para gente é muito próximo. Aquelas casas destruídas que se vê na TV, na internet, nós já estivemos ali. As fisionomias nos são muito familiares. Então tentamos nos afastar dessas notícias”, disse Marcelo.
 
Soma-se ao sofrimento a dor da perda de amigos. “Uma técnica de basquete, amiga, foi baleada e morreu pelo simples fato de estar andando na rua. Hoje, quem não usa burca, corre o risco de ser atingida. Os atiradores ficam escondidos, vigiando as ruas”, conta ele. “Tenho também um amigo, que jogou comigo, que foi embora para o Canadá com a família e, por algum motivo, resolveu tentar voltar a Alepo. Ele foi morto pelos jihadistas na estrada entre Damasco (capital) a Alepo.”
 
Já Lorena se condói com a perseguição religiosa que seus amigos têm enfrentando após sua partida. “Converso com uma freira com quem trabalhei em uma ONG enquanto estive na Síria e ela me conta que os cristãos são postos na rua com fitas, cartazes e sacos brancos escritos: Não tocar: cristão. Isso é obra dos terroristas. Antes, nós, cristãos, convivíamos bem com os muçulmanos.”
 
Enquanto não há um cessar fogo, resta a esperança de voltar e ver a Síria se reerguer, como conta Marcelo. “Pensamos da seguinte forma: A maioria das pessoas que conseguiram sair de lá, está investindo seu dinheiro. Algum dia elas deverão voltar para a Síria, um país destruído e cheio de mercado para desenvolver. Vão começar a reconstruir o país. Os árabes são um povo resiliente, trabalhador. Vai demorar, mas acredito que a Síria vai voltar ainda melhor.”

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