Quem ouve e vê Rodrigo Pimentel falando e gesticulando com sua irreverência, tom de voz motivador e alguns palavrões em frases proferidas com seu forte sotaque carioca, não imagina tudo que ele vivenciou como capitão do Bope (Batalhão de Operações Especiais Policiais).
Policial Militar em atividade de 1990 a 2001, atuando como capitão do Bope de 1995 a 2000, Pimentel esteve em Franca na semana passada e deu continuidade ao ciclo de palestras em comemoração ao centenário do jornal Comércio da Franca. Sem perder o raciocínio, bem-humorado e trabalhando bem as palavras, o ex-capitão, sociólogo de formação e consultor de segurança pública contratado pela Rede Globo soube prender a atenção da plateia. Pimentel foi roteirista do filme Tropa de Elite, escreveu o argumento do segundo filme, é autor do livro Elite da Tropa e foi co-criador do documentário ânibus 174, sobre o seqüestro de reféns do ônibus da linha 174 no Rio de Janeiro.
Antes de fazer sua palestra “devastadora e eficaz”, como ele mesmo definiu sem modéstia (e cumpriu), o ex-capitão do Bope conversou com a reportagem do Comércio. Confira nas próximas linhas.
Qual foi a operação mais marcante que já participou como capitão do Bope?
Várias foram importantes pela morte de inocentes. Uma delas foi a do Morro do Turano, em 1998. Eu estava abrigado do tiro do bandido em uma casa e a moradora morreu. O dono começou a xingar minha equipe, dizendo que tínhamos matado essa mulher e que eu era um assassino. Argumentamos contra, porque não tínhamos dado sequer um tiro. Ele disse: “Eu sei, mas minha esposa morreu porque vocês usaram nossa casa de escudo”. Aquilo me marcou. Até ajudamos a tirar seu corpo da casa. Aquela operação era para pegar talvez meio quilo de cocaína. Talvez uma pistola, um fuzil. E, para fazer isso, você põe centenas, milhares de moradores em risco. Foi ali que eu comecei a questionar se era razoável você fazer operações em favela para reprimir o tráfico de drogas.
Qual é, então, sua visão a respeito do tráfico de drogas?
Sou a favor da redução e também acho que o criminoso tem que ser punido com a mão pesada. Por outro lado, não entendo a repressão. Todas as drogas deveriam estar legalizadas há muito tempo. A guerra contra o tráfico de drogas é uma guerra perdida. Ninguém vai deixar de cheirar pó ou fumar porque existe a repressão policial. Nunca funcionou e vai continuar assim.
E o que a polícia pode fazer no combate ao tráfico?
Evitar que armas continuem chegando ao País através de rodovias federais e estaduais, fazer o máximo de operações possíveis para retirar esse armamento das ruas. O bandido pode até passar a usar só faca, mas será mais difícil se usar armas nos crimes e matar com pistola, revólver ou fuzil.
O filme Tropa de Elite ficou marcado no cinema nacional e chamou atenção por ter sido o primeiro longa-metragem do José Padilha e seu primeiro roteiro. Como construíram a história?
Mesmo sem ter escrito um roteiro na vida, desde jovem participei de concursos de redação e escrevia crônicas. O nome inicial era Bope e o Zé, que era professor de física, topou o desafio. Começamos do nada e foi o filme mais midiático da história do Brasil. O segundo foi o mais assistido no País. Quisemos retratar a equipe Alfa, de alta performance e no mar de corrupção que é a polícia do Rio de Janeiro. Para isso, usamos histórias isoladas e reais.
No que pensaram ao criar o Capitão Nascimento, personagem tão aclamado pelo público?
A explicação para o sucesso do Nascimento foi porque vivíamos um momento de escândalo como o atual, da Operação Lava Jato. Na época do filme, o presidente do Senado pagava a mesada da amante com o dinheiro de uma empreiteira. Isso foi o escândalo de corrupção mais óbvio da história do País. O Tropa de Elite foi lançado na mesma semana e estavam todos de saco cheio e revoltados com tanta corrupção. Como o Nascimento, apesar de violento, era um homem que abominava corrupção, ele se tornou um herói aos olhares dos brasileiros, que também não se conformam com esses absurdos.
Vocês tentaram retratar essa indignação dos brasileiros através do Nascimento?
Não, de forma alguma. É engraçado, mas não pensamos nisso nem naquela cena que ele bate em um deputado, no Tropa de Elite 2. Assisti ao filme em diversas cidades brasileiras, e as reações eram semelhantes. As pessoas aplaudiam, gritavam e vibravam com isso. Todo brasileiro deve ter vontade de dar porrada em um deputado, mas não tem de votar consciente e refletir sobre seu voto e política. (risos)
Afinal: ele foi inspirado em você? Qual faceta quiseram dar ao Capitão Nascimento?
Acho que todo policial que quer fazer o melhor e não é picareta, deveria se enxergar no Nascimento. Talvez ele seja uma homenagem a todos esses policiais que se encaixam nisso. O que tem de mim nele é o seguinte: meu filho realmente nasceu em uma operação policial. Eu não me envergonho de falar que, após isso, tive síndrome do pânico. Não queria morrer em favelas. Antes do seu filho chegar, você não dá a mínima de morrer ali ou não. Mas depois é diferente. Eu quis sair do Bope a qualquer custo. O que acontece ali na favela é uma guerra equivocada e em vão.
A polícia tem um papel de confrontação e também de pacificação em conflitos. Como equilibrar esses extremos?
O papel da polícia é de pacificador social. O conflito acontece quando algo deu errado ou se a presença não conseguiu trazer paz. Mas lá no Rio, por exemplo, os jovens procuram seguir carreira na polícia pela falsa ilusão de que o combate é a coisa mais bonita do mundo. Eu me incluo nisso. Fui nessa ideia. Ninguém quer ser o policial comunitário de quarteirão. Tem que manter em mente que policial serve como alguém que traz paz para a sociedade.
Acredita que os conceitos utilizados pelo batalhão e contados em sua palestra são aplicáveis em outras áreas de atuação? Como?
Há princípios de batalhões de elite do mundo todo que podem ser usados no cotidiano para se obter uma equipe vencedora na vida acadêmica e profissional. Muitas eu consigo trazer do Bope para o dia-a-dia. Tento transportar para o mundo civil quando falo em planejar, executar com disciplina e perseverar na tentativa. O Tropa de Elite é a maior prova disso. Essa é a principal mensagem e o lema do Bope: Vá e vença.
Há quinze anos, houve o sequestro do ônibus 174, em que a refém, uma professora, foi morta pelo seqüestrador, assassinado depois pelo Bope. Na época, você fez críticas à operação. Quais os apontamentos principais que fez além da falta de infra-estrutura necessária?
Não só estrutura. Faltou tudo. Uma equipe que resgata reféns tem de treinar e praticar, assim como a de invasão. Negociadores fazem cursos, falam com psicopatas, vão a manicômios, conversam com psicólogos. A equipe que invade e resgata é aquela que fica no quartel treinando e descansando para estar preparada e não falhar. Naquele dia, a equipe do Bope estava em uma favela e a mandaram para resolver o seqüestro. Os policiais estavam com equipamento e armamento inadequados e treinamento desatualizado. Era óbvio que não daria certo.
As coisas mudaram? Tem uma visão positiva sobre a polícia hoje?
Com certeza. Tudo mudou nesses quinze anos. Por exemplo, o Bope tem uma equipe só para resgate. Não perdemos mais nenhum refém ou policial em operação após esse episódio. Isso dá otimismo. Claro que faltam algumas coisas, como mais qualidade na polícia. Acho que se o policial militar pudesse autuar os bandidos, teríamos mais viatura e agilidade, o que ajudaria a diminuir a criminalidade. Mas as coisas estão melhores que antes.
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