Este filme de título aliterado e instigante, pois parece ser uma mensagem em off, dirigida aos que vivem por alguém que está fora deste universo de vivos, rompe com a estrutura narrativa clássica para contar sua história por meio de um mosaico de acontecimentos, composto por uma série de quadros que ilustram situações humanas.
Por 94 minutos, seguimos mais de 50 vinhetas, quase todas apresentadas em planos-seqüência, sem cortes, com monólogos e diálogos obscuros e, muitas vezes, perturbadores. Tudo minuciosamente coordenado e enquadrado com uma câmera fixa, quase sempre a partir de um plano levemente elevado, nos forçando a olhar a cena não só no primeiro plano onde acontece a ação, mas também por trás de uma riqueza de detalhes, em uma aparente banalidade.
Acompanhadas de humor e música, situações de enganos e desencontros são apresentadas sem que necessitem qualquer relação direta entre si, unidas pela ocorrência no próprio espaço. Cada vinheta sustenta-se sozinha, mas, aos poucos, algumas narrativas começam a surgir, apesar de desnecessárias: o essencial é o que o diretor denomina de trivialismo - pequenas ocorrências que pontuam a tragicomédia humana.
As historietas vão montando um painel da cotidianidade urbana. A genialidade está em tratar sobre a humanidade , sem ostentação. Perspicazmente, ela é convidada a encenar o filme, em um movimento de pequenas cenas do dia-a-dia. Não é esse comum que compõe a nossa vida? A simplicidade apresentada remete a uma sofisticada apreensão da nossa existência.
Os personagens que cruzam o filme, dos mais comuns aos mais bizarros, trazem um aspecto solitário. Eles se apresentam empalidecidos por peculiar maquiagem e ocupam seus mundos parecendo mortos-vivos, vagando pelos cantos, arriscando desde questões da sobrevivência diária até indagações filosóficas na tentativa de alcançar algum sentido. Eles revelam muitos elementos que compõem a complexidade de existir.
Ao assistir ao filme, transitamos entre espectadores e protagonistas em uma flutuante condição de observar e de sermos vistos. Vocês, os vivos: um convite para pensarmos sobre a preciosa e precária condição humana.
Hoje, a partir das 15 horas, no Centro Médico de Franca, sede campestre. O evento é aberto ao público em geral, interessado na obra de arte que é um filme e na possiblidade de troca de impressões possibilitada pela abertura à participação de todos os presentes.
Diretor
Roy Andersson, o diretor, nasceu em 1943 na Suécia. Em 1960, resolveu tornar-se cineasta e teve Ingmar Bergman como orientador.
Realizou seu primeiro filme o longa metragem Uma história de amor sueca, em 1969. Estreou bem o diretor. A obra foi premiada. Depois, em 1975, enfrentou o fracasso comercial e de crítica de Giliap.
Posteriormente, dedicou-se ao mundo dos comerciais. Com o sucesso na carreira da publicidade fundou sua produtora e seu estúdio, o Studio 24, onde desenvolveu um estilo próprio de fazer comerciais, em geral de longa gestação e apuro visual.
Após anos, volta à cena com a trilogia sobre a existência: Canções do segundo andar (2000), Vocês, os vivos (2007) e Um pombo pousou no galho refletindo sobre a existência (2015), filmes premiados e aclamados em todo mundo.
Renata Sarti é psicanalista e psicóloga
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