Aos sábados, a Praça Benedito Calixto é um recanto de memórias à procura de um destino. Buscam, deveras, um receptáculo cognitivo que lhes porporcione uma significação além da mera existência material. Alguns dos objetos ali postos à venda são de uma beleza estonteante, tal qual um singular gramofone exposto na tenda de um velho senhor argentino. Nos quatro cantos e ocupando toda a largura da caixa de madeira que compunha o objeto musical havia quatro pequenas esculturas de figuras angelicais.
Apropriado, pensei. Não sou adepto à crença incondicional em milagres inexplicáveis para a ciência, mas enxergo como milagrosa a intervenção perpetrada pelas inúmeras sequências de atos aleatórios que possibilitaram o surgimento da Nona Sinfonia de Beethoven, dos ariosos de Bach, das Óperas de Verdi e de Carlos Gomes e até mesmo de sons relativamente atuais, como o rock e a bossa nova. Sons estes aptos a serem reproduzidos naquela esplendorosa máquina guardada por quatro dos mensageiros de Deus.
Outros objetos projetavam auras menos beatificadas. Sinistras, há de se afirmar. Tomo como exemplo uma velha adaga embainhada em grosso couro de boi. O objeto era desproporcionalmente pesado e sua lâmina, hoje tomada pela ferrugem, fazia sugerir que já havia sentido o gosto de sangue. Valeria uma fortuna se tivesse sido usada por algum oficial durante a Revolução de 32, imaginei.
Por que gostava tanto de apreciar objetos tão velhos e abandonados ao relento do esquecimento? Talvez pois neles vislumbrasse um reflexo do meu próprio ego ferido, um ego maculado a se enveredar por nuances estreitas em busca de um ponto final. Tal com a lâmina opaca da adaga, meus olhos encontravam-se sempre velados pela mórbida saudade de tempos melhores. Tal como o gramofone, meu espírito ainda ansiava por reproduzir belas composições de emoções, sentimentos e razão.
A Praça Benedito Calixto localiza-se em Pinheiros, São Paulo. Um ótimo sítio para aqueles que buscam um vetor de direção e sentido definidos para a vida. Curiosos certamente também gostarão.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.