Em minha caminhada ocorreram e ocorrem tropeços e quedas.
Sempre que faço esforços para me levantar, desejando voltar à marcha, a vida me prescreve cuidados homeopáticos. Avio a receita, inicio tratamento: ingiro, diariamente, ao me levantar, algumas gotas de alegria. Desde as primeiras doses, corpo e alma se fortalecem , retomo meu caminho rumo ao amanhã.
Assim foi.
Foi assim, quando fui compelido a deixar o Colégio São Gabriel, na cidade de Santa Rita de Cássia, onde lecionara por cinco anos. A alma tropeçou, foi ao chão, feriu-se em pedras, ficou vestida de perebas. Fui então despertado, madrugada alta, por uma serenata promovida por um grupo de alunos, entoando uma valsa:
Não troco nada no mundo
Pela terra em que nasci
Terra que tem uma igreja
Outra mais linda eu não vi...
Ergui-me, soprei o pó da roupa, ignorei a dor e me fui esperançoso, acompanhado sempre daquelas vozes e das bênçãos de Santa Rita.Assim foi.
Foi assim, quando morava no bairro Ângela Rosa, em Franca. Tropeçara tanto, em tantos pedregulhos e em mim mesmo que a alma se vestira de mágoas e de névoas. Uma madrugada, quando o sono migrara para outros continentes, músicos percorreram as ruas do bairro, em cima de caminhão. Homenageavam a cidade pelo seu aniversário:
Terra dos meus sonhos
Igual outra não vi
Jamais te esquecerei
Cidade onde nasci...
Embalado pela valsa, fechei os olhos, viajei. De manhã, ao levantar-me, gotejei o remédio no café. Paz e sono retornaram. Retomei meu caminho em direção ao sol.
Assim é.
É assim. Quando um grito de melancolia, ou de desânimo me chega lá da rua, lá do bairro; quando uma lágrima me chega do ócio, ou da desesperança; fecho os olhos, ouço aquelas serenatas, ouço tantas vozes outras. Então, diluo gotas do remédio na água, bebo-a.
Todas as sedes se amenizam.
Vitalizado, retomo meu caminho para a luz.
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