O que dizer da incomunicabilidade de dois amantes entrelaçados numa forma de prazer sensorial que os acalma, enquanto se envolvem emocionalmente consigo mesmos?
O que pensar da solidão desesperada de uma jovem adolescente que precisa urgentemente se sentir amada por um belo músico, enquanto ele se volta para suas necessidades de sucesso?
E da angústia com que alguém acorda de manhã após ter tido um sonho no qual foi condenado à morte por ter desafiado séculos de tradição e velhos hábitos?
E como falar do desamparo de quem trabalha todos os dias junto a companheiros que estão emparedados e surdos para uma forma mais pessoal de convivência? Ou do choro de quem não pode compartilhar no trabalho o que acabou de viver no lar?
Estas e outras questões corriqueiras de nosso cotidiano poderão ser refletidas por aqueles que comparecerem à próxima sessão de Cinema e Psicanálise de Franca, no dia 14 de novembro, quando será apresentado o filme Vocês, os vivos, do diretor sueco Roy Andersson e que faz parte da Mostra Internacional de Cinema da Cultura. Para comentá-lo convidamos a psicanalista da SBPRP e psicóloga, Renata Sarti.
O filme mostra situações triviais do dia a dia com suas realidades estranhas, ainda que familiares. Cada uma delas nos expõe ao impacto da experiência que revela um paradoxo da condição humana estar vivo é uma necessidade humana bem mais complexa do que aparenta ser, pois não basta ter todas as funções vitais perfeitas ou apenas parecer vivo.
Neste filme, os personagens mostram os mal-entendidos que surgem quando se encontram ou ficam juntos, mas não conseguem se comunicar. Se sentem abandonados, isolados, traídos, esquecidos, descartados, ao serem privados da atmosfera afetiva que une, comunica e humaniza.
A arte e a psicanálise contemporâneas vêm explorando e investigando os processos de vitalização e desvitalização dos modos humanos de ser e estar no mundo.
E não seria esta a razão de haver tantos filmes e seriados atuais sobre zumbis que contagiam ou devoram os vivos, ameaçando a humanidade inteira de se tornar uma população de mortos-vivos?
Portanto, acredito que o diretor sueco esteja sintonizado com este fenômeno humano e, através do filme, propõe uma reflexão essencial através de cenas condensadas e estilizadas sobre a automatização das relações humanas numa sociedade cada vez mais apta a sobreviver e com recursos sofisticados para ter vida longa.
A solidão e a comunicação são duas partes vitais e complementares da personalidade humana dois momentos do mesmo e comovente fenômeno humano que é o “estar vivo”.
Uma comunicação viva pressupõe haver uma rica capacidade de se estar consigo mesmo e assim promover intimidade com privacidade. Quando alguém tenta se agarrar a apenas um lado deste fenômeno, solidão se torna isolamento e comunicação gera transparência e dependência excessivas.
A psicanálise atual ampliou seu eixo principal de tornar consciente o inconsciente para o da construção de vivências capazes de captar vida em áreas inacessíveis da mente, ampliando a capacidade de se experimentar emoções vivas de qualquer natureza e poder sustentá-las através do pensamento, para que o ser humano possa ter contato e se apropriar daquilo que tem de mais vivo e verdadeiro. Sendo assim, transmitir o sentido da experiência humana viva é nosso maior desafio e tarefa de contínuo esforço e coragem.
Pela complexidade inerente à vida e ao ser humano, ao tomar o cinema como fonte de matéria prima semelhante àquela do inconsciente, a Psicanálise não lhe subtrai o seu caráter de estranheza, mas adentra seus mistérios respeitando suas impenetrâncias. Poderemos, desta forma, tentar extrair do próximo filme, tão instigante, observações sobre as forças de vida e de anti-vida que nascem de toda relação humana, principalmente quando não as conhecemos e nos acomodamos àquelas de mais fácil trato.
Em novembro comemoramos 7 anos de vida do “Cinema e Psicanálise” junto aos francanos, o que nos enche de alegria e honra, pois este ninho foi construído criativamente em nossa cidade, com o clima caloroso de casa cheia e debate intenso na maioria das sessões, o que define a riqueza incomparável do trabalho revitalizante que temos realizado juntos.
Venha celebrar conosco mais um ano desta feliz parceria e conversar sobre “Nós, os vivos”!
ONDE ASSISTIR
Cinema e Psicanálise
Filme: Vocês, os vivos
Onde: Centro Médico de Franca, Sede Campestre
Quando: Amanhã, 15 horas
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