Os jogos de poder se escancaram. Ano que vem tem eleição. Agentes políticos perdem o que lhes resta de decência e vão à luta conscientes que a memória popular é curta, e que o sangue brasileiro tem traços bandidos. Não à toa, Nelson Rodrigues dizia que ‘frente à maior das desgraças, o brasileiro faz... piada’.
A bandidagem de camisa listrada ou colarinho branco age e nós fechamos os olhos. José Maria Marin — ex-governador do Estado de São Paulo e, depois, cacique da CBF — foi preso na Suíça. Esta semana, foi extraditado para os Estados Unidos. É apontado em relatório do FBI como recebedor de propinas para concessão de direitos de televisão da Copa América e Copa no Brasil. Segundo o Estadão, para ficar em prisão domiciliar no seu apartamento na Quinta Avenida, pagou fiança de R$ 40 milhões. O piadista brasileiro o inveja. ‘Tem muito mais que essa merreca. Ele é f...!’. Penso que, livre e tornando à política, teria o voto desses.
Bilhões desapareceram dos cofres da Petrobras. Seus dirigentes imitaram Lula: ‘não sabemos de nada’. Vê lá se bilhões desaparecem sem que gestores corretos percebam. Não eram incompetentes. Eram espertos. Confiavam que tudo seria fácil, e seria como sempre, mas a Lava Jato os atropelou.
Esta semana, ‘por causa de chuvas que prejudicaram estradas rurais’, aconteceu outra cartelada de postos nos bolsos de seus clientes: R$ 0,30 de aumento por litro de álcool combustível, e todos ao mesmo preço da noite para o dia! Leitor do Comércio brincou: ‘não foi a chuva. É que na capital de Franca, Ribeirão Preto, aumentaram o preço’. Um outro lembrou que há alguns meses, convocação nas redes sociais resultaram em ação popular recomendando não abastecer nos postos BR. Disse também que um de posto ligou a ele para ‘saber razão de meu sumiço’. Especulei com um frentista sobre. Franziu a testa. Disse que ‘teme pelo emprego porque as vendas despencaram’. Insisti: ‘muda?’. Disse que as pessoas ‘reclamam, mas acostumam e voltam’. A piada? ‘Troco meu carro por um cavalo. Dou volta pelo cavalo’.
Explico, então, a opção pelo título ‘Jogos de poder’, deste artigo. Agentes políticos confiam cegamente em nossa capacidade de rir das desgraças. É próprio do brasileiro. Também, sabem de nossa letargia; que podem excrementar o que se lhe der na ‘cabeça’ para garantirem-se no poder. Desafio você a indicar ao menos cinco CPIs, das tantas instauradas pelo Brasil, que tenham produziram resultado capaz de modificar algo para melhor. Não tem? Então. A indústria que mais cresce neste país é a das pizzas prontas.
Aqui, dinheiro público é tratado como dinheiro privado. O brasileiro médio não sabe o que é milhão. Tenta definir, mas sai piada: ‘milhão é espiga graúda’. Como nem imagina, não dá bola para ‘pequenos’ desvios de milhões ou meios-milhões, ou centenas de milhares. Sem fiscalização de legisladores que deveríamos escolher dentre gente séria, mas preferimos ‘amigos’ que não deram certo em suas profissões ou empresas e que poderão ‘devolver o favor’, ‘executivos’ nadam de braçadas. A respectiva piada vem de amigo meu: ‘eu te ajudo, e você me ajuda!’
Dinheiro público deveria ter um único rumo: garantir direitos e serviços constitucionais ao povo, já que sai a fórceps do próprio povo. Não deveria ser desviado para servir a interesses privados, mas é. Legislativos cordeiros aplainam caminhos e os ‘executivos’, ‘legalmente autorizados’, distribuem. Depois, cobram.
O povo, preguiçoso em alcançar informação correta, passa batido. O Judiciário, de homens sérios e outros nem tão, sem investimentos que lhe estimule eficiência e eficácia — e é por isso que não há investimentos —, lava as mãos, a não ser que denúncias específicas caiam do céu. A impunidade se institucionaliza. Pobres de nós. Lembra-me a história do otimista inocente que ganhou balde de estrume e, feliz, correndo com o vasilhame de merda, perguntava onde é que estava o cavalo que lhe deram....
Luiz Neto
jornalista, editor de Opinião - luizneto@comerciodafranca.com.br
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