Chiachiri, meu professor e aluno


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O ano era 1969. Eu contava 14 anos de idade e estudava no Colégio Champagnat. Cursava a 4ª série do curso ginasial, equivalente hoje ao 9º ano do ensino fundamental.

Tinha como professor de História o historiador José Chiachiri Filho.Morava próximo ao Colégio e passava boa parte do meu tempo naquele amplo espaço, ora estudando, ora frequentando os vários campos e quadras esportivas que lá existiam.

Eu vivia uma adolescência muito feliz pois podia fazer tudo que uma criança fazia naquele tempo. Participava de todas as atividades esportivas e de lazer, quer no Champagnat, quer nas ruas ou nos imensos espaços vazios que haviam nas imediações de minha casa, com grandes quintais ou chácaras, que hoje estão todos povoados por muitos bairros que foram sendo criados nos últimos anos.

Os momentos de brincadeiras nas ruas estavam com os dias contados. Foi naquele distante ano de 1969, de uma forma brusca e depois de ter acabado de chegar em casa, vindo de bicicleta do antigo mercadão no centro, que percebi que alguma coisa estranha se passava com minha visão.

Uma nuvem negra subia pelo meu olho e minha visão ia sumindo parcialmente. Ao olhar no espelho, só enxergava uma parte de meu rosto e, em poucos minutos minha visão foi desaparecendo por completo.

No dia seguinte, fui levado pelo meu pai para o Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, onde foi diagnosticado um descolamento de retina, problema insolúvel na época, pelo menos no Brasil.Um ano antes já havia perdido a visão do outro olho, graças a uma hemorragia e atrofia do nervo ótico, provavelmente originados por uma pedrada que levei próximo do olho, quando saía de um jogo de futebol no campo do Internacional, na Estação, onde fui acompanhar meus irmãos que jogavam no time do Champagnat.

Apesar de todas essas adversidades, segui minha vida, dando continuidade aos estudos, tendo concluído alguns cursos superiores, me casado e constituído uma nova família.

Comecei a trabalhar alguns anos depois de ter perdido a visão, tendo lecionado vários anos para pessoas com deficiência visual.No início, ensinava o Braille, dava aulas de Inglês e outras atividades correlatas.

Em 1995, com o advento dos softwares com síntese de voz, passei a usar um microcomputador, tendo incluído esse recurso em minhas aulas, o que se tornou uma novidade na época, principalmente a internet, que estava bem no início no Brasil.Bem antes disso, por volta de 1977, o professor Chiachiri, também foi acometido de descolamento de retina, que lhe tirou totalmente a visão.

Quando comecei a usar o computador, falei-lhe dessa excelente ferramenta e dos benefícios que ela poderia nos oferecer. Depois de relutar um pouco, resolveu ter aulas comigo para também se valer das inúmeras facilidades que a informática nos proporciona.

Assim sendo, ele passou a ser meu aluno e, mesmo depois de já ter aprendido o que mais lhe interessava, sempre me ligava quando tinha alguma dúvida.

Chiachiri demonstrou ter ficado muito grato pelo aprendizado adquirido pois o computador lhe deu novamente a possibilidade de voltar a escrever e ler muitos textos e até livros, atividades das quais muito gostava.

No último dia 15, fui surpreendido com a notícia de sua morte, ao ligar o rádio pela manhã.

Lembrei-me de algumas conversas que tivemos, nas quais falávamos da importância de se acreditar na existência de um ser superior, sem o que, a vida parecia ficar sem sentido.

Baseado nessa crença e na existência de uma vida eterna, creio que o amigo, que fora meu professor e depois aluno, tenha agora recuperado sua visão, já que agora ela não mais dependerá de seus olhos, que um dia se tornaram deficientes, o que acredito venha acontecer comigo um dia, quando passar desta vida para um plano superior.

Luís Quirino, bacharel em Direito, licenciado em História e Pedagogia
 

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