O médico e agora ex-diretor do ICV (Instituto Ciências da Vida) Reinaldo Ferrari Letrinta disse que sua empresa, a Corpe Clin, nunca participou ou apresentou qualquer proposta de preço para assumir os serviços médicos nos Prontos-socorros Infantil e “Álvaro Azzuz”. A afirmação foi feita, ontem, em depoimento à CEI (Comissão Especial de Inquérito) que investiga a ação de uma quadrilha de falsos médicos e os contratos entre o ICV, responsável pela contratação dos falsários, e a Prefeitura de Franca. Segundo Letrinta, são falsos os três orçamentos da Corpe Clin que foram apresentados pela Prefeitura à CEI, como parte do processo de seleção do ICV.
Reinaldo Letrinta foi ouvido na Câmara Municipal de Sorocaba (SP), depois que a CEI conseguiu uma ordem judicial para que ele comparecesse à audiência. Não foi preciso usar a força policial. Antes mesmo do início da oitiva, marcada para as 15 horas, ele já estava presente.
Acompanhado de seu advogado, Reinaldo pediu que seu depoimento não fosse filmado ou gravado pela imprensa presente. Também requisitou que não fossem feitas fotografias durante a audiência. Os pedidos foram negados pelo presidente da CEI, Márcio do Flórida (PT), e pelo relator Daniel Radaeli (PMDB). O terceiro membro da comissão, o vereador Jépy Pereira (PSDB), não viajou a Sorocaba.
Durante cerca de 1h30, o médico contou qual era a sua função no ICV. Disse que havia deixado o cargo de diretor em agosto deste ano e que agora apenas prestava serviços médicos em Várzea Paulista (SP).
Letrinta disse que em 2014 trabalhou como gerente médico em Franca e que era responsável pelo contato entre os médicos do ICV e a Prefeitura. Ele admitiu a existência de superplantões, em que um mesmo médico era escalado para trabalhar por 24 horas por dia durante até 31 dias seguidos. “Franca foi um contrato emergencial. Chegamos em uma época muita complicada, então acabou se permitindo ter mais escala.” Mas admitiu que, em parte desse período, o médico passava descansando ou dormindo no próprio PS.
Segundo ele, a Prefeitura, em especial a coordenadora de Urgências e Emergências, Rose Vilela, e a secretária municipal de Saúde, Rosane Moscardini, tinha conhecimento das escalas irregulares. “A administração sabia. Ela tinha acesso a todas as escalas, tanto as pré-plantões como as pós-plantões.”
Mas a afirmação que mais causou surpresa foi a de que a empresa Corpe Clin, de propriedade de Letrinta, nunca apresentou qualquer proposta para disputar o contrato de Franca com o ICV. Segundo os documentos enviados pela Copel (Comissão Permanente de Licitações) da Prefeitura, dos cinco processos de contratação do ICV ao longo dos últimos 15 meses, a Corpe Clin teria participado de três deles. Nos documentos, há folhas em papel timbrado da empresa com propostas de preços.
Questionado, Letrinta foi categórico. “Desconheço essas propostas. Não foram feitas ou elaboradas por mim ou com o meu conhecimento.” Ele também afirmou que sua empresa não tem funcionários e que desconhecia o nome que assina os documentos. “Não tenho ninguém na empresa. Sou apenas eu. Não conheço nenhuma Silvia nem faço ideia de onde possam ter surgido esses documentos. São todos fraudes grosseiras.”
Sobre os falsos médicos, ele disse ter tido contato apenas com Pablo Mussolin, que se passava por Pablo Galvão, mas disse que nunca desconfiou que se tratava de um falsário. “Não percebi nada de errado.” Ele disse que não era o responsável pelas contratações dos falsários e que só tomou conhecimento do fato pela imprensa.
Ao final do seu depoimento, pediu cópias dos documentos apresentados pela CEI e disse que deve tomar medidas legais contra a fraude. Ele não quis dar entrevista.
‘Vítimas’
Ontem, os vereadores também ouviram o diretor-operacional do ICV e um dos fundadores do instituto, o médico João Gilberto Rocha, que pouco acrescentou às investigações. João, também acompanhado de seu advogado, usou seu depoimento para tentar se justificar. Disse que “herdou” os falsos médicos de uma outra empresa que prestava serviços em Várzea Paulista e que foi uma “vítima” da quadrilha. “Eles nos enganaram como enganaram muita gente. Não fizemos nada de errado e não somos bandidos.”
Desdobramentos
O presidente da CEI considerou a oitiva de Reinaldo Letrinta muito proveitosa e disse que, diante das declarações do médico, deve estudar novas convocações de funcionários da Secretaria da Saúde de da própria Copel. “São afirmações gravíssimas e que precisam ser melhor investigadas. Vamos apurar como esses orçamentos vieram parar no processo e quem foi o responsável pela elaboração dessas propostas que o médico afirma serem falsas.”
O presidente também afirmou que deve apresentar na próxima terça-feira um pedido de prorrogação da CEI. “O prazo para a conclusão dos trabalhos vence no início de dezembro e ainda temos muitas oitivas para serem realizadas e documentos para serem juntados. Vamos fazer o pedido de prorrogação e esperamos contar com a compreensão de nossos colegas.”
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