“Quer que olha seu carro?”. Essa é uma pergunta comum quando se estaciona o veículo próximo a eventos, shows, bares e restaurantes. A abordagem dos flanelinhas, que se oferecem para vigiar os automóveis, é alvo de reclamação de motoristas em vários pontos da cidade.
No sábado passado, em duas ruas próximas ao Teatro Municipal, os flanelinhas entravam em ação antes dos carros estacionarem, indicando vagas aos motoristas e se oferecendo para vigiar o veículo em seguida.
Ao serem abordados, alguns motoristas se recusam a pagar para ter o carro vigiado, outros ficam com medo de terem o automóvel danificado e acabam dando dinheiro aos flanelinhas. “Alguns pedem um tanto específico e outros aceitam qualquer valor, é um incômodo e a gente é obrigado a dar porque não sabe o que a pessoa é capaz de fazer com o carro”, disse o assistente administrativo Elvis Alves, 35.
Na avenida Paulo VI, a quantidade de bares e restaurantes faz com que a região seja outro ponto visado pelos flanelinhas. O estudante Bruno Esteves, 18, foi abordado por flanelinhas ao parar seu carro para ir a um dos barzinhos, no último sábado. “Costumo dar o que sobra de troco e eles acham ruim quando é pouco. Se a pessoa está bêbada ou com aparência de usuário de drogas eu não dou dinheiro”, disse o estudante.
Na última Festa di San Gennaro, promovida pela Apae em setembro, a ação dos flanelinhas era bastante intensa e irritou motoristas. “Sou totalmente contra, não tem nenhuma regulamentação e não é uma profissão. Acho que deveria ter estacionamento só da organização da festa”, disse o comerciante Luiz Barcellos Neto, 50. Ao ser abordado pelo flanelinha, ele disse que voltaria logo e dispensou os serviços.
Já para quem é flanelinha, a prática é uma forma de sustento e acaba virando uma “profissão”. A avenida Paulo VI é o ponto de trabalho de Fabiano Campos há cerca de 10 anos. “Na rua não pode cobrar, a gente sabe disso, mas a gente não obriga ninguém, a pessoa paga se quiser. Segundo o flanelinha, ele consegue ganhar de R$ 50 a R$ 60 por dia. “Eu já tive um emprego, mas fui mandado embora e agora só fico olhando carros”, afirmou ele.
No Teatro Municipal, um flanelinha de 45 anos, que pediu para não ter o nome identificado, tem até controle dos veículos que vigia. Ele distribuiu aos motoristas um “ticket” com seu nome. O papel é dado ao motorista quando ele estaciona o carro e devolvido na hora de ir embora.
Outros não têm ponto fixo, mas também se sustentam só por meio da prática. “Eu só mexo com isso de olhar o carro, cada dia trabalho em um lugar. Algumas pessoas reclamam, mas costumam pagar, cobro R$ 5”, disse o flanelinha Tiago Henrique, 19.
Repreensão da prática
O secretário municipal de Segurança e Cidadania, Sérgio Buranelli, disse que não há fiscalização específica ou legislação que envolva a questão dos flanelinhas. “Essa exploração da rua, que é um lugar público, é proibida. A cobrança em via pública só pode ser feita pela Prefeitura na Área Azul”. Ainda segundo o secretário, a cobrança indevida pode ser denunciada para a Polícia Militar, pelo telefone 190.
Diante da prática, a Polícia Militar também tem atuação restrita por não haver a “criminalização específica para a conduta”, não podendo a ação dos flanelinhas ser “reprimida penalmente”, de acordo com informações da assessoria de imprensa da PM.
Apesar de admitir essa dificuldade de “repressão e controle”, a PM afirma que realiza “abordagens com o intuito de coibir delitos praticados pelos flanelinhas, tais como, extorsão, ameaça e dano material”.
A Polícia Militar orienta as pessoas a denunciarem essas práticas e que a vítima de eventual extorsão ou dano material permaneça no local até a chegada da viatura. Assim haverá a identificação do autor do crime e da vítima e o registro junto à polícia, para que se inicie uma investigação.
Tentativa
A Câmara Municipal de Franca aprovou em 2014 projeto de lei para coibir a ação dos flanelinhas, mas ele foi vetado pelo prefeito Alexandre Ferreira (PSDB).
A proposta era criar um sistema de estacionamento chamado Área Azul Social em dias de shows e eventos. O dinheiro arrecadado seria repassado para entidades sociais e para o Conselho Municipal da Assistência Social.
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