Imaginar Nezinho vestindo a camisa de Franca seria algo surreal no mundo do basquete. Mas, o esporte pode propiciar essas reviravoltas. Um dos principais carrascos da história do Franca Basquete, o armador Welington Reginaldo dos Santos, o “Nezinho”, vai reforçar o clube na disputa do NBB 8 e na fase semifinal da Liga Sul-Americana. O anúncio da contratação do armador feito na semana passada ocasionou um grande impacto não apenas na cidade, mas também no “universo do basquete”.
O jogador tem sua história atrelada ao time da “capital do basquete” como rival ferrenho. Em quadra, estão eternizados duelos acalorados e inúmeras decisões de títulos entre ele e o clube. A rivalidade vem desde os tempos do COC/Ribeirão e o tornou o atleta mais odiado pelo torcedor francano. Mas, pelo menos para ele, todo esse ódio e rancor estão com os dias contados. Contratado por Franca, Nezinho quer escrever um novo capítulo na relação com o clube.
Dentro de quadra, há pouco o que dizer, seu currículo fala por si só. Nezinho é um dos jogadores com mais vitórias do basquete brasileiro na atualidade. Pela equipe de Ribeirão Preto, o armador conquistou o Pentacampeonato Paulista (2001, 2002, 2003, 2004 e 2005) e ainda sagrou-se campeão brasileiro em 2003. Com o fim da equipe do COC/Ribeirão em 2006, Nezinho se transferiu para Brasília e foi parte importante na primeira conquista da equipe em um campeonato brasileiro. O título veio diante de Franca, em pleno ginásio Poliesportivo.
Em 2008, Nezinho se mudou para Limeira e a rivalidade o acompanhou. O armador liderou o time na conquista do Campeonato Paulista sobre Franca. Após a conquista do título, a equipe limeirense encerrou suas atividades e Nezinho retornou à da capital federal. Em Brasília, o armador conquistou três títulos do NBB (Novo Basquete Brasil), sendo um deles contra Franca, de Helinho e do técnico Hélio Rubens Garcia. No time candango, Nezinho ainda venceu duas Ligas Sul-Americanas, em 2010 e 2013. Pela seleção brasileira, o jogador também coleciona títulos, como da Copa América de 2005 (República Dominicana); dois Sul-Americanos (2006 na Venezuela e em 2010 na Colômbia); campeão Pan-Americano no Rio de Janeiro, em 2007; além de participação em dois Mundiais.
O armador não foi poupado nem sequer em partidas comemorativas. Sempre que desembarcou em Franca para disputar o “Jogo das Estrelas”, do NBB, o inimigo número 1 dos francanos era vaiado e hostilizado, sempre que pegava a bola.
Fora das quadras, o Welington Reginaldo dos Santos pouco lembra o jogador brigador, obcecado pela vitória que vemos dentro dos jogos. Sem a bola laranja nas mãos, Nezinho é um cara tranquilo, de fala mansa e sorriso fácil, bem ligado à família e sossegado.
Depois de toda rivalidade construída entre Nezinho e o torcedor francano, por que você aceitou o convite para jogar no Franca Basquete? Algum momento pintou dúvida sobre sua vinda?
Sou um grande jogador e tive vários jogos decisivos aqui. Desde quando comecei a jogar profissionalmente em 2000, foram sete anos no COC/Ribeirão, e tinha esses embates direto. Daí você vê o ginásio cheio, grandes jogadores, uma atmosfera toda legal, onde todos os torcedores ali vivem o basquete. Todo jogador imagina jogar em um lugar deste. E tive essa possibilidade, com o fim de Limeira, meu contrato de dois anos foi encerrado e acertei com o Helinho minha vinda para cá. São decisões que o atleta profissional tem que tomar com 100% de convicção, pois envolve família, você estar feliz para trabalhar e desenvolver o seu melhor. Foi uma decisão bem tomada.
Ao longo de sua carreira, você já tinha recebido alguma sondagem do Franca Basquete para defender o clube?
Chegaram a sondar se eu viria para cá, mas nada oficial da maneira como ocorreu desta vez. Se não me engano foi na época do fim da equipe de Ribeirão Preto, em 2006. Eles consultaram meus empresários, e depois não deram mais sequência. Depois disso acabei indo para Brasília.
Antigo desafeto, como você pretende conquistar o carinho e o respeito do torcedor francano?
Eu quero fazer o que mais sei que é jogar basquete. Eu amo o basquete. Por isso, quero estar bem preparado para retribuir este carinho que tenho recebido todos os dias na rua. Quando vou comer, eles chegam para me cumprimentar e indagar se estou bem. Estou feliz com isso. Como eu disse, quero estar preparado fisicamente para estar jogando, desfrutar de todo esse momento e fazer o meu melhor. Temos que ter todos compenetrados e pensando sempre em vitórias, vitórias e vitórias. Se vamos ganhar ou perder é outra coisa, mas o time tem que entrar pensando sempre em vencer.
Sua chegada provocou um grande impacto na cidade e no universo do basquete. Como tem sido a reação das pessoas sobre essa situação de você vir jogar em Franca?
Está sendo bem ‘maneira’. O celular vive cheio de mensagens de apoio e incentivo. Amigos próximos, jogadores e família, todos querendo saber como está sendo a receptividade. Até mesmo quando estava negociando, já tinha alguns amigos me dando apoio para acertar. A curiosidade é de todos, pois a rivalidade era muito grande. Não tenho o que me queixar de nada, pois estou sendo bem tratado pela diretoria, jogadores e torcedores que encontro na rua. Estou feliz, quero trabalhar e buscar fazer o meu melhor, que é jogar basquete.
Você estreia nesta terça-feira contra o Macaé. Como você acha que será o comportamento da torcida? Espera o coro com o seu nome, diferentemente das vaias que costumava ouvir?
Eu não sei como é ter essa torcida a favor, sempre tive contra. Na época quando fui para o profissional e tinha lá meus 19 e 20 anos, você escutava a torcida xingando e isso desviava atenção. Depois com mais experiência, você se prepara melhor e como os duelos eram emocionantes, você não ouve mais ninguém. Tenho companheiros que me perguntam como consigo jogar com todo um ginásio contra. Tudo é o estado de concentração, você entra focado na quadra e o time. Claro que agora a favor, quero curtir esse momento de receber aplausos e gritos de apoio. Vou procurar manter a mesma concentração e foco para vencer.
O clube passa por um processo de reestruturação e no meio da temporada consegue culminar com uma grande contratação. Você está pronto para conduzir e liderar o time?
Procuro encarar com naturalidade essa missão. Se fosse um peso para mim, na primeira conversa com o Helinho, já teria desistido. Sei da responsabilidade que é, e o tamanho que tem o Franca Basquete. Gosto de desafios e estou aceitando mais esse desafio em minha carreira da melhor maneira possível. Vou procurar conversar com todos eles para adquirir informações, de como é o time, de como eles gostariam de fazer as jogadas, e por aí vai até se encaixar. É uma relação que leva um pouco de tempo, de entrosamento, mas a conversa será importante para encurtar esse período.
Faz quase uma década que Franca não conquista um título expressivo (o último foi o Campeonato Paulista de 2007). Você pensa em fazer história no clube e levantar uma taça?
Em todos os lugares que joguei minha cabeça sempre foi vencer. Já tive várias discussões e brigas com amigos que joguei por quase 10 anos juntos, por um dia eu estar de cabeça baixa, ou eles desmotivados, por querer ganhar. Em Franca não será diferente. Mas isso levará um tempo para você ter essa intimidade e falar de forma mais áspera com alguém e procurar tirar o melhor de cada um. Esse será um dos desafios. Em quadra, o jogador tem que se doar ao máximo. A vitória é consequência. Se ela não vier, temos que trabalhar mais para o próximo jogo. Não quero pensar em fazer história, penso em fazer o meu melhor. E se o melhor for ganhar títulos, vencer e o time atuar bem, é isso que me importa.
Agora em Franca, você espera levar a ‘redinha’ do Póli para casa? Houve alguma frustração de sua parte, por ter sido impedido de levá-la no título conquistado por Brasília, no Campeonato Brasileiro de 2007?
Lula fez essa graça comigo durante a apresentação (sic). Esse acontecimento foi em 2007, quando era moleque, tinha lá meus 25 anos, e você quer levar algumas recordações para casa, como redinhas e bolas do campeonato. Só que não me atentei à rivalidade, pois tem muita coisa envolvida nisso tudo. Não achei certa a conduta, mas entendi. No ano seguinte, o episódio se repetiu com o Flamengo e o pessoal de lá não aceitou. Se tiver a oportunidade de fazer isso aqui, farei com o maior orgulho. O atleta que luta por seis ou sete meses pensando no título quer uma recordação como essa. Nesses dois casos eu não tive, mas coloquei no meu quadrinho de casa essas conquistas.
Helinho anunciou aposentadoria das quadras na temporada passada. Ele foi um dos principais adversários seus no basquete?
Sem dúvida. Tinha rivalidade pelas proximidades das cidades e sempre foi um vencedor. Eu novo, fui crescendo aos poucos e tive que conviver entre esses “feras”: Helinho, Valtinho, Arnaldinho e agora Fúlvio. São jogadores muito bons e você fica estimulado para enfrentá-los. Se você não tiver esses oponentes do lado para incomodar, não é legal. Se tenho a carreira que tenho, sou grato a esses caras, e o Helinho foi um desses. Falei isso para ele quando ele esteve em Limeira, já como dirigente, pela brilhante carreira que teve como atleta. Tivemos vários embates, e em alguns passávamos do ponto, mas isso nunca deixou a admiração que tenho dele pelo trabalho executado no basquete.
Com 34 anos, você é um atleta já experiente. Você pretende jogar em alto nível até quando?
Até a molecada deixar (sic). Eu me sentindo bem, ajudando o time, incomodando esses mais novos, sendo produtivo para a equipe, espero seguir em quadra. Quando eu perceber que não estou legal, que está difícil ir para o treino, aí sim será o momento de parar. Mas essa situação eu consigo enxergar só bem longe ainda viu (sic).
Você tem algum sonho que ainda pretende realizar no basquete?
Eu consegui conquistar bastante coisa. Queria sim ter disputado a Olimpíada, mas não consegui. Acabei sendo cortado da lista final. Mas não tenho nada a reclamar da minha carreira. Com 16 para 17 anos, pensava em ser jogador de basquete, mas não imaginava atingir esse estágio e chegar até a seleção brasileira. Sou muito feliz e resolvido por tudo que conquistei, e quero conquistar mais ainda. É uma carreira que quando parar vou ter orgulho de relembrar de tudo aquilo que fiz.
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