O vendedor Agenor de Melo Cintra, 59, do Parque Progresso, ainda chora ao lembrar o que viveu no último domingo. Ele viu seu irmão morrer depois de esperar por atendimento dentro da Santa Casa. Agora o vendedor quer justiça. Denunciou o caso à polícia e deve processar a Prefeitura e o hospital.
Agenor conta que tudo começou em Claraval (MG). Durante um almoço em família, o serviços-gerais Nereu de Melo Cintra, de 57 anos, irmão de Agenor, começou a passar mal. “Ele foi ficando amarelo. Dizia estar com dificuldades para respirar e sentia muita dor na barriga e nas costas. Resolvemos levá-lo ao médico”, contou o irmão.
Em Claraval, o vendedor disse que encontraram o posto de saúde fechado e foram para Ibiraci (MG). “Lá, o médico examinou meu irmão. Disse que era caso de internação e que ia acionar o pessoal de Passos (MG). Mas, como não temos nenhum parente lá, decidimos trazê-lo para Franca. Achei que aqui as condições de atendimento eram melhores. Estava enganado.”
Chegando em Franca, no meio da tarde, os dois irmãos foram direto para o Pronto-socorro “Álvaro Azzuz”. “Lá, meu irmão passou pelo médico, fez um monte de exames e deixaram ele em observação tomando soro.” Já era perto das 22 horas do domingo, quando o médico resolveu dar alta a Nereu. “Ele não estava bem. A gente via. Ele não conseguia falar. Não andava sozinho. Estava muito pálido ainda. Mas quando questionei, o médico mediu a pressão. Disse que estava tudo certo e nos mandou para casa.”
Como os resultados dos exames só ficariam prontos no dia seguinte, Agenor acatou a decisão do médico. Mas no meio da madrugada, Nereu voltou a passar mal. “Eu estava dormindo com ele no quarto, quando acordei com seus gemidos. Ele não conseguia explicar o que estava sentindo. Começou a vomitar sangue e fez as necessidades nas calças.”
Assustado, Agenor pediu a ajuda do filho e correu com o irmão para Santa Casa. “Eu moro no Parque Progresso, achei mais lógico ir direto ao hospital em vez de voltar para o pronto-socorro.” Ao chegar na porta da Santa Casa, veio o desespero. “Parei o carro na calçada mesmo. Gritei pedindo ajuda. Uma das atendentes levantou, veio até o carro, olhou meu irmão no banco de trás e disse: ‘Ele ainda está consciente. Não podemos atender’. Virou as costas e saiu.”
De acordo com a burocracia da saúde, o paciente tem de passar antes pelo PS para, depois, ser transferido para a Santa Casa.
Agenor disse que ficou tão desesperado e com medo de o irmão morrer, que decidiu invadir o hospital. “Eu peguei o Nereu pelos braços. Meu filho pelos pés e fomos entrando. Os seguranças não nos impediram. Mas como não sabia onde levá-lo, o deitei nas cadeiras. Continuei pedindo socorro. Mas me ignoraram.”
O vendedor não sabe precisar quanto tempo ficou ali com o irmão em seu colo desfalecido até que um enfermeiro trouxesse uma maca. “Acho que foram uns 40 minutos. Eles vieram com a maca. Uma médica olhou e disse: ‘Já que não tem jeito, vamos atender’. Mas já era tarde. Meu irmão morreu nem meia hora depois”, contou.
Agenor não se conforma com a forma como seu irmão foi tratado. “Acho que se fosse um cachorro machucado, teriam dado mais atenção. Lá é um hospital. Deviam salvar vidas e não deixar alguém morrer.”
Revoltado, ele procurou a polícia. Registrou um boletim de ocorrência contra a Santa Casa por omissão de socorro e contra o PS por ter dado alta a um homem que não estava andando.
A Santa Casa foi procurada para comentar o caso, mas no setor de assessoria de imprensa ninguém atendeu ao telefone. O e-mail enviado para o hospital também não foi respondido.
A Prefeitura também foi procurada sobre o caso, mas também não respondeu ao e-mail.
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