Falei esta semana, a convite do advogado, professor e articulista deste Comércio, Acir de Matos Gomes, na tradicional Jornada Jurídica da Universidade de Franca, uma das casas de ensino de Ciência Jurídica que definem Franca como polo nacional de referência na formação de competentes advogados, magistrados, promotores, defensores públicos, delegados de polícia e professores.
Cerca de 800 estudantes, bem como professores da faculdade, coordenados pelo competente professor Esdras Lovo, receberam-me com atenção e curiosidade. Afinal, advogados e jornalistas têm visões distintas sobre réus: aquele, força de ofício, deve aguardar julgamento para chamar quem o contrata de inocente ou culpado; este, dever profissional, deve contar as razões que tornam alguém, réu.
Fui falar sobre ‘Crimes de Repercussão’, ou, trocando em miúdos, o que pensa a mídia sobre o fascínio exercido pela violênciade estupros, pedofilia, chacinas, execuções, casais que se matam. Quem é que resiste à curiosidade quase mórbida de dar uma olhadela à razão ‘daquele aglomerado de gente ali à frente?’.
Lá esteve comigo, também convidado, o delegado de polícia titular da DIG (Delegacia de Investigações Gerais) de Franca, Márcio Garcia Murari — a quem coloco, por acompanhar sua atividade e elucidações de casos, no mesmo patamar do delegado aposentado Guido Bettarello, profissional que a bandidagem aprendeu a temer e, principalmente, a respeitar, já que nos escaninhos de crimes a resolver de ambos, maioria nunca encontrou solução de continuidade. Também, o atento repórter André Costa, com quem trabalhei neste Comércio e na rádio Difusora, e que hoje atua na Clube/Band. Fizeram comunicações corretas, o jornalista expondo razões do comprometimento de mídias com seus públicos específicos, e o delegado, sobre o relacionamento das polícias com a mídia. Concordaram sobre o respeito profissional e institucional que se tem que preservar de parte a parte.
Quanto a mim, levei reflexões para trocar com audiência tão qualificada. A violência deste tempo me deprime. Tenho defendido que o fim da educação construída em família, e os desarranjos sofridos pela educação ao longo de décadas, estejam na origem da quebra de respeito e da violência que grassam.
O brasileiro não teve tempo para construir cultura da leitura — e leitura é tudo: gera conhecimento, capacidade de argumentação, compreensão e respeito pelo outro. A alfabetização, no Brasil, só se tornou obrigatória na década de 60. Quando aquela geração começaria a ler para valer, veio a popularização das sessões de cinema e a televisão, nos entregando cenários prontos. Desobrigamo-nos da leitura. Deixamos de estimular a própria cabeça . Tornamo-nos preguiçosos e nos pós-graduamos nisso.
Passamos a consumir textos curtinhos, figuras. Textos aprofundados, nem pensar. Mais duas ou três décadas de ‘estudos dirigidos’, ‘progressões continuadas’, reorganizações físicas de escolas — o assunto não é novo —, foram coroadas pelas maravilhas da tecnologia celular e da internet que nos tornou manada a caminhar em sentido único. Ficamos rápidos, mas não objetivos; superficiais, quase sem emoção; despreocupados, sem dor de consciência; analfabetos funcionais, péssimos leitores e ouvintes, incapazes de expressar nosso próprio pensamento.
Nosso íntimo animal, sonolento, acordou: passamos a rir das desgraças alheias, a guerrear por nada; a lamber os pés de ‘benfeitores’ que nos dão ‘de graça’ o que quer que seja; a exercitar nossa curiosidade, doa a quem doer; a gozar, quase sexualmente, frente à desgraça que se abate sobre o outro; e até matar, se estivermos em bando. Bichos matam para saciar necessidades básicas. Homens modernos não: estamos matando por meroprazer! Restamos fascinados pelo que nos assusta ou nos é incompreensível. Pior! Estamos gostando e querendo mais, a qualquer custo...
Luiz Neto
jornalista, editor de Opinião - luizneto@comerciodafranca.com.br
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