Educação sofrida


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A Secretaria da Educação paulista cozinha outra revolução, mas não a revolução ansiosamente aguardada da própria Educação. Lembro-me quando a secretária da área, Rose Neubauer, implementou a Progressão Continuada que, a partir daqui, chamo de PC. Estatísticas de baixa repetência alcançadas pelo Brasil correram o mundo, mas enganou por pouco tempo. Continua, se é que pode.
 
O ‘cozido’ de agora é a reorganização escolar, como se divulga a especialização de prédios escolares estaduais para ensino fundamental em alguns e ensino médio em outros. De novo, como a PC, vem de cima para baixo. Diz-se que estão sendo consultados professores, diretores, estudantes e pais de alunos. Estão, e o que se ouve desses é contrário, mas, ouve-se só pró forma. A decisão está tomada. Para mim é só mais uma  estratégia para conter custos de abertura de mais salas de aula em cumprimento ao preceito constitucional de garantir vagas a crianças em idade escolar. Os desastres causados pela PC são conhecidos. Há, por causa dela, analfabetos funcionais demais e jovens esclarecidos, leitores eficientes, consciências críticas capazes de fazer diferença na vida própria e na do país, de menos. Políticos, nos bastidores, certamente dizem que a PC foi e continua sendo genial. 
 
Neste Comércio documentamos histórias de jovens que chegaram ao ensino médio sem saber ler, escrever, fazer continhas básicas, incapazes de falar com adequação, expor pontos de vistas. Chamo essa agora anunciada reorganização escolar, de ‘fase 2’ da PC, novo truque para ampliar, novamente, as vagas indispensáveis ao ensino fundamental. Repito: vagas para crianças em idade escolar é dever constitucional e obrigação do Estado. Pais têm que mandar o filho para a escola, e os governos têm que oferecer a vaga. O que vem depois do ensino fundamental, se ajeita. Não necessariamente o indivíduo continua a estudar depois do fundamental, e os governos contam com isso. . 
 
Com a reorganização, uma escola de 400 estudantes, metade no fundamental e metade no médio, se permanecer como escola ‘fundamental’, os 50% de alunos do médio sairiam. As vagas que deixariam livres receberiam estudantes do ensino fundamental. A explicação oficial é convincente: as classes terão, no máximo, 35 alunos para garantir melhor aprendizado, exigir menos tempo e melhor performance do professor. Por este artifício, quase 1 milhão de estudantes serão remanejados para compor ‘faixas etárias compatíveis’ e deflagrar um poderoso movimento. Os problemas esperados são graves, mas se tornariam ‘marolinhas’ no meio do furacão: os alunos deixarão compulsoriamente o ambiente perto de casa com o qual estavam acostumados; terão que percorrer distância que pode chegar a 1,5 quilômetros e, especialmente, terão que reconstruir relacionamentos. Restarão inseguros na mais difícil fase de construção da personalidade. 
 
O brasileiro médio, ‘morno’ quanto a se posicionar, aceitará e impingirá ao filho que cumpra. (A propósito, o governo também fala, novamente, em fechar a escola ‘Otávio Martins de Souza’. Este fechar, implícito desde o momento em que Diretoria Regional de Ensino de Franca passou a ocupar parte do prédio daquela escola, vai acontecer mais dia menos dia. Seus estudantes irão parte para o CEDE, parte para o EETC, e isso já foi anunciado, o que significa decisão tomada à revelia de professores, alunos, pais de alunos. Nos bastidores, comenta-se que a razão principal é corte de gastos. Dificil entender: dinheiro na educação é investimento. Nunca, prejuízo). 
 
Este país não vai a lugar nenhum. A única revolução da qual não podemos abrir mão é a da própria Educação, nunca a de suas instalações físicas, mas políticos não querem saber de nada que signifique formar consciência crítica. Lembra-me Sun Tzu, em A arte da guerra: ‘A manobra contribui para a liberdade de ação e reduz as próprias vulnerabilidades’. 
 
 
Luiz Neto
jornalista, editor de Opinião - luizneto@comerciodafranca.com.br
 
 

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