Epifanias


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“Tudo leva a crer que existe um certo ponto do espírito de onde a vida e a morte, o real e o imaginário, o passado e o futuro, o comunicável e o incomunicável, o alto e o baixo cessam de ser percebidos contraditoriamente.”
(André Breton)

O instante ficou em minha memória, gravado, como certos odores e certos sabores se imprimem, indeléveis, em nossos arquivos de afetos. E em mim permanece, tão singular e vivo quanto o vivido naquele momento.

Saíamos de reunião ordinária da Academia Francana de Letras, na antiga Casa da Cultura. No pátio interno, ajardinado, uma árvore exalava perfume adocicado, inebriante. Detive-me ali. O odor, o desenho da grande copa recortada contra o céu, o branco luzente das flores... tudo aquilo criava uma cena mágica, compunha uma atmosfera de encantamento. Então, observei que havia um pássaro, imóvel, num dos galhos. Parecia adormecido. Só pude vê-lo porque suas penas eram bem mais claras do que as folhas. Devo ter deixado escapar um breve oh!... ou ah!..., já que alguém que eu não vira indagou: “Quem é?”
Sentado na mureta do alpendre, estava o Chiachiri, provavelmente esperando aquele que o levaria a casa.
- Chiachiri, estou aspirando o odor da noite. Não é uma delícia?
Reconheceu imediatamente a minha voz e a omissão de parte da informação.
- Sim, Eny, uma delícia. E de onde ele vem? Você vê de onde vem esse perfume?
- De uma árvore que está aqui, à nossa frente.
- Ah... (pausa). Só isso?
- Não. Não é só isso. A árvore está repleta de flores brancas com um brilho nacarado. Vejo bem porque a noite está muito clara, com lua cheia em céu limpo. Sabe? Descobri um passarinho dormindo num dos galhos...

E repentinamente sua expressão se torna séria. Parece pensativo.

Então, num abracadabra, o Protopoema de José Saramago me vem à mente, tão mágico e luminoso como luminosa e mágica estava a noite. Chiachiri encontra e puxa, “do novelo emaranhado da memória, da escuridão dos nós cegos”, um fio, e liberta-o: “um fio longo, verde e azul, com cheiro de limos”. E, nesse fio com “a macieza quente do lodo vivo”, ele vai reencontrando o caudaloso rio de sua vida e de suas lembranças, líquidas lembranças e líquida vida que correm em suas mãos, em sua pele, em seu sangue... no corpo todo, que agora se confunde com o rio, é o rio: cenário surreal de aquáticas noites luminosas e odorosas, árvores e pássaros e flores, céu mais perto e de outra cor, uma ave sem nome que pousa calada...

O momento dura o triz e a eternidade de um insight. Tudo muito rápido... e indefectível.

No último dia 14, José Chiachiri Filho, nosso bom amigo, companheiro de letras, professor, escritor, historiador, fundiu “numa só verdade as lembranças [...] e o vulto subitamente anunciado do futuro”. Completou o curso de seu rio, desde a “escuridão dos nós cegos” até o “fulvo remanso”, quando “as mãos se [juntam] às mãos” e há “o grande silêncio primordial”.
Agora, Chiachiri saberá tudo.
 

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