Em meu tempo de rapaz, fui administrador da fazenda Boa Vista em Franca, por mais de quatorze anos. Levava vida de constantes aventuras, mesmo porque isto fazia parte de meu dia-a-dia. Nas cavalgadas diárias, criavam-se emoções diferentes e inusitadas. Numa dessas saídas matinais, parti a cavalo sem destino. Pitomba, uma cadela boxer de três anos, muito diligente, era minha constante companheira naquelas andanças. Desde o momento que começava a encilhar meu cavalo tordilho de nome Caporal, ela vinha e deitava-se à sombra da casa próxima ao palanque onde estava amarrado o animal, esperando apenas que eu montasse para sairmos. Pitomba proporcionava-me muita segurança, pois dava sinal de tudo que se movesse à minha frente.
Ao chegar na divisa do Grotão do Olimpíco [sic], vizinho do leste, parei para adivinhar o que poderia acontecer naquele momento pois ali eu deslumbrava um visual digno do mais esplêndido belvedere, pois se avistavam a olho nu três cidades distintas ao longe, quase a perder de vista. Duas no estado de Minas Gerais, ali próximo, sem falar no deslumbrante e imenso vale, donde a paisagem se estendia ao bom ver. Não era à toa que a fazenda chamava-se Boa Vista.
Imaginei fazer uma visita à fazenda Gigante, situada no grotão, uma vez que eu já estava mesmo sem destino. Caporal inquieto, ansioso para andar, inclinou-se para onde eu mais queria ir. Aquelas terras em que penetrávamos, cobertas por mata virgem, região de terra roxa, um tanto pedregosa e acidentada, remanescente da gleba que Olimpíco herdou do pai, um dos últimos varões da família de Bernardo Avelino, patriarca, ilustre e de tradicional clã de cafeicultores. Estavam ali, desde bem antes da chegada dos imigrantes italianos e eram os primeiros plantadores de café naquelas fazendas.
A cavalo aproximei-me da casa grande, abri a porteira que dava para o pátio interno, entrei e deixei-a bater provocando um som alto, de propósito, para que alguém aparecesse por ali. De um lado havia um carro de bois parado, pelo jeito há meses. Depois surgiu quem eu esperava, por detrás de uma cerca interna de balaústres, o mulato Terêncio, gerente e pessoa dos agrados do patrão. Nos conhecíamos desde quando me tornei gente. Pediu-me que apeasse, oferecendo-me a hospitalidade tradicional lá da terra, quando ocorrem esses tipos de visitas, mesmo que por breve tempo. Pitomba havia se escorraçado, apoiando a barriga na areia fresca, à sombra do velho carro de bois, botando meio palmo de língua pra fora. Isto acabou me convencendo a aceitar o cafezinho oferecido por uma das filhas da casa.
Em seguida Terêncio perguntou-me:
— Você soube o que aconteceu com a velhinha dos gatos? Tivemos aqui um movimento daqueles, a semana passada...
Respondi:
— Afinal, o que houve?
— Morava a velha sozinha com seus gatos, em um recanto aqui na fazenda. Era viúva do velho preto e carreiro Miguelão. Convivia também com inúmeros gatos, na verdade eram mais de cinquenta entre machos e fêmeas, grandes e pequenos. Desde que se enviuvou, o patrão deu lhe direito de ficar morando no ranchinho deles, por tempo indeterminado. Com isso os anos se passaram e nós às vezes até nos esquecíamos dela. Observei que há vários dias não se via fumaça sair da chaminé na casinha da velha. Isto me provocou curiosidade, acabei indo lá assuntar. Ao chegar, notei muita coisa errada. Parecia que algo não estava bem, uma sujeirada medonha, ouvia-se grunhido de gatos por todos os lados, um verdadeiro pandemônio. Bichanos pulando e brigando uns com os outros. No rancho, a porta principal entreaberta, rangia forte com a brisa, resvalando de tempo em tempo. Dava para sentir que exalava um mau cheiro de carniça que só. Minha ansiedade aumentou quando passei da sala para o quarto, e ao olhar a cama no único aposento, aquilo me deixou espantado. Não se distinguia bem a cena.
A cama deveria ser a dela, parecia um sedenho de cabelos longos e ossos tal qual um ninho horripilante de bicho do mato com os restos da carcaça da velha, misturados com os compridos fios de cabelos. Certeza que não os cortava há mais de sete anos, desde que o marido morreu. Aquilo formava uma coisa esquisita, era um remexido com o que dela sobrou, fazendo o volume mais estranho que vi na vida.
Em minha mente confusa, em ver coisas tão estranhas eu não sabia mais definir e, nem mais o que se distinguia, tamanha era quantidade de gatos passando por baixo e por cima dela. Uns a demonstrar ainda sentimentos de carinho para com a velha, lambiam-lhe os restos de um rosto desfacelado. Notava-se naquele momento algo muito estranho acontecendo. Eu não sabia ao certo se era pelo cheiro forte que exalava daquele resto de cadáver, ou se era alma penada daquela velhinha, roçando em minhas pernas, surgindo por baixo da cama.
Fiquei apavorado.
Nisto deu-me um arrepio no corpo inteiro e, ao erguer os olhos, vi muito claro uma imagem feminina, com vestido longo, brilhando, como se fosse projetada entre a cama e a parede. Parecia uma alucinação ver aquela figura horripilante e estranha, dando a parecer tal qual uma foto que vi um dia em um dos livros do patrão. Saltei dali, expulsei todos aqueles animais para fora, fechei janelas e portas. Muito impressionado, galguei meu Baio, casquei-lhe as esporas e num piscar d´olhos cheguei aqui. Tranquei-me em meu quarto, e fiquei a imaginar o que teria sido aquilo. Depois contei para Francisca, minha mulher, o que eu tinha visto, troquei a camisa e o lenço de pescoço, danei-me para a vila, telefonar para seu Olimpico.. Duas da tarde já estavam aqui: delegado, escrivão, funerária e outros curiosos em dois automóveis de praça.
Fizeram um levantamento de tudo, botaram o que sobrou da velha numa pequena urna improvisada, pararam aqui um pouquinho para tomar água, café e o povo poder ver de perto a desgraceira. Ao saírem, seu Olimpíco disse que eu fosse também com eles, pois seria meu dever, ir até o fim daquele caso.
Fomos todos para Franca enterrá-la, mesmo como indigente, uma vez que não havia mais nenhum parente dela vivo por aqui. Depois o delegado mandou levar a urna diretamente para a necrópole, logo após a perícia na delegacia.
— Mas, Terêncio, o que resultou disso tudo? Estou supercurioso.
— Por final, depois de o delegado ter tudo analisado sobre o acontecido, eu o vi mandando o escrivão anotar no livro de ocorrências, na delegacia, presumindo o seguinte: pelo tempo em que a velha ali morou em companhia daqueles gatos, ao cabo de muitos anos, quase ninguém passando por lá, os bichanos haviam se familiarizado tanto com ela, que depois dela ter-se acamado enferma, e nunca mais se levantado da cama, acabou definhando até sucumbir-se totalmente inválida. Sem poder chamar por ninguém e nem alimentar-se, tampouco aos gatos e, neste estado de coisas, acabou expirando. Devagar os animais famintos, e cada vez mais a fome apertando, foram devorando-a sem terem a quem mais recorrerem. Foi quando lá cheguei.
Existe um dia que o homem torna-se gente; é o dia que ele renasce para Deus e para si mesmo.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.