Madrugada e já transpasso ondas, domino o mar, de pé sobre minha jangada. A água salgada polvilha meu dorso nu, enquanto meus olhos se fixam no vermelho que dela emerge e banha o horizonte.
Minutos depois e estou na varanda enorme, ingerindo uma tragada a mais do amargo chimarrão. Descanso a cuia na mesinha e, pilchado, monto meu tordilho, galopo coxilhas – as pontas do lenço vermelho esvoaçando –, visito estâncias.
Não demora e a roupa é vaqueta que me protege o corpo enquanto, aboiando, percorro a caatinga.
Minutos apenas se esvaem e estou a percorrer, descalço, trilhas da Serra da Canastra. Banho-me na água do riacho que logo ali salta da altura de setenta, oitenta metros e, lá embaixo, brinca de correr deitado, batendo em pedras que permanecem pedras.
Sem meias e sem sapatos e sem esquis, esquio, daí a pouco, nos Alpes, brancos como sono de criança.
Na África, onde tudo começou, estilingue em punho, caço manadas de elefantes. Com as mãos, aliso dunas e deixo a paisagem planamente monótona. Mitigando a sede em todos os oásis, atravesso o Saara em meu cavalo de pau.
Mergulho no Atlântico, saio do outro lado. Sento-me numa nuvem, namoro a Floresta Amazônica. Depois, pinto de azul as águas do Rio Negro.
De repente me lembro de coisas boas. Caminho um pouco, até as minhas minas mais gerais, sento-me no topo da Serra da Mantiqueira e, enquanto balanço as pernas, como torresmo, queijo e doce de leite.
Manejo a bateia e, na primeira tentativa, em meio à ganga, ela me mostra a pepita da qual o sol arranca lampejos à medida que ela se afasta da água, lavada e pura. Lembro-me do poeta Rossine e entrego o tesouro ao primeiro homem que passa.
Ouço a voz saudosa de minha amada. Cochicho, e o vento e a brisa viajam. Cobrem distâncias e cantam no seu ouvido as canções minhas e dela.
Caminho no tempo, palpito nas letras de Noel Rosa, acompanho Carlos Gardel, empunhando meu bandoneon.
Sou sonhador.
E viverei sempre dançando com frases, metáforas e palavras que colhi.
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