Por trás da boemia


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Nesta luta por minha formação acadêmica, desde meus primeiros dias na cidade de Franca, desfruto da sensação de ser garçonete aos sábados à noite. Dentro da vida noturna, recorre a sensação paradoxal que invade o âmago de quem sou: de um lado o prazer de ouvir Stairway to Heaven minha canção favorita do Led Zeppelin; de outro, as dores no joelho esquerdo e a inconstância no humor dos boêmios.

Confesso que não posso me queixar da vida que escolhi, aprendi mais que equilibrar bandejas carregadas de aperitivos ou abrir com excelência garrafas de vinho barato. Com o soar de uma guitarra, tocando uma de minhas músicas prediletas, cavo um encontro profundo com minha própria escuridão, e penso que é muito simples estar do lado de fora desta situação, ou seja, ser cliente e esperar que o garçom encha seu copo de refrigerante e lhe ofereça uma salada gourmet qualquer. Ao contrário do que muitas pessoas pensam, os garçons possuem lembranças, vazios e autonomia sobre suas vontades.

Completo alguns copos com uma cerveja envolvida por uma embalagem suada. Visualizo minha praça saciada e percebo que posso fazer da parede um encosto para meu corpo cansado. O vazio no coração aparece juntamente do prazer de ouvir aquela canção, meu pensamento desloca-se hipoteticamente em alta velocidade para uma rodovia pouco movimentada, onde só existem eu e a radio FM sincronizada. Penso em caminhos de me distanciar daquela vida mecânica, porém foi no ambiente noturno que aprendi a conhecer verdadeiramente o que algumas pessoas são por essência. O vazio no peito do garçom é a consciência de que somos máquinas emancipadas, talvez como o boneco de lata do Magico de Oz tendo o primeiro contato com um coração verdadeiro.

 Enfim, carrego minhas bandejas, agradeço com sorriso cordial, e levo dentro do pensamento que nada vale das experiências se não pudermos crescer com elas.

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