O assassinato da bancária Rosane Berteli de Souza, 24, morta pelo ex-namorado Breno Helton Costa Rezende, 32, no mês passado, comoveu Franca e continua sem algumas respostas. Entre as questões que só podem ser respondidas por Breno, preso no CDP (Centro de Detenção Provisória) de Franca, estão onde ele conseguiu a arma do crime e o que aconteceu no estacionamento do Centro minutos antes de disparar um tiro na cabeça da mulher e depois tentar suicídio.
Enquanto Breno Rezende se recupera, a advogada Linda Luiza Johnlei Wu tenta elencar peças que possam contribuir com a defesa de seu cliente e contrastar a ideia de que o crime foi premeditado. Entre os elementos, estão o laudo do psiquiatra de Breno, seu estado de saúde e o conteúdo de cartas deixadas por ele para Rosane e a própria família.
A reportagem do Comércio teve acesso exclusivo aos papéis. A carta para Rosane foi encontrada pelo pai do acusado em seu quarto. A endereçada aos genitores estava no carro de Breno. A advogada acredita que ele possa ter se confundido na hora de pegar os manuscritos e levou o dos pais ao invés de carregar consigo o de Rosane.
Entre palavras de amor à bancária, Deus, doação de orgãos e pedidos para que fosse perdoado pelo que estava prestes a acontecer, ele escreveu a respeito do próprio sofrimento e demonstrou não querer mais viver. Aos pais, ele pediu para que não sofressem, usassem sua parte da herança que dividiria com a irmã, Vanessa, e afirmou que há o neto, filho da irmã, para confortá-los.
Ainda segundo Linda, a conversa que o ex-casal teve antes que Breno disparasse contra a jovem, é um elemento importante para entender o que teria motivado o homicídio e não apenas o suicídio. “Por que ele escreveria uma carta para quem ia matar pouco depois? Nossa presunção é de que se mataria na frente da ex-namorada. Ele ainda não tem condições de falar sobre, pois quando perguntamos se imagina por que está preso, Breno diz que não sabe. Não sabemos nem se ele lembra quem era a Rosane”, disse a advogada.
Condições de saúde
Após ficar 35 dias internado no Hospital Regional, Breno recebeu alta na última terça-feira e está preso no CDP (Centro de Detenção Provisória). Ele estaria andando curtas distâncias e seguindo alimentação líquida e pastosa. Estaria respondendo com poucas palavras ou frases curtas e nem sempre responde corretamente. Estaria, ainda, cego de um olho e usando fraldas.
Mas, segundo Linda, ainda é cedo para saber as sequelas que ele carregará para o resto da vida e seu grau de consciência. “O agente penitenciário pediu, quando o visitei, para que pusesse as mãos para trás para que a algema fosse colocada. Ele olhava rindo e só entendeu na terceira vez o que foi solicitado e quando o agente mostrou o que ele deveria fazer”, contou.
Laudo psiquiátrico
O psiquiatra Fernando Prota, de Ribeirão Preto, atendeu Breno de abril a julho deste ano. Logo na primeira consulta, percebeu uma tendência suicida leve no paciente, diagnosticado com TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo) grave. “Porém, em nenhum momento, Breno relatou ideação homicida”, escreveu Prota no laudo anexado ao processo de homicídio qualificado que corre na Justiça de Franca.
De acordo com o psiquiatra, o transtorno demonstrava que o acusado tinha pensamentos obsessivos e que o levou a um isolamento social, explosividade, incapacidade de se envolver em qualquer atividade produtiva e irritabilidade. Ultimamente, a obsessão teria se direcionado a Rosane. Breno só conseguia pensar no namoro e suas questões e só melhorava quando criava listas de perguntas para a ex. As indagações eram anotadas em pequenos papéis ou mesmo no celular.
Prota apontou ainda que o réu teve uma piora e novos medicamentos foram receitados. Entretanto, ele não retornou para a consulta de agosto nem procurou o tratamento com psicólogos, que fora orientado a fazer. “Ele não fazia terapia e tinha propensão ao suicídio. Essa foi a razão de, dias antes do crime, ter sido internado no hospital ‘Allan Kardec’, onde ficou até a família pedir sua liberação. Breno saiu sem alta médica, mas os pais o levaram para casa sem saber como lidar com ele, caso atentasse contra a própria vida”, disse Linda.
AS CARTAS DE BRENO
Leia as mensagens deixadas por Breno à ex-namorada Rosane Berteli e aos pais dele.
As cartas foram lidas para a reportagem pela advogada da família de Breno, Linda Johnlei Wu
Para a ex:
‘Rosane
Oi amor. Pensei que tudo ia ser diferente, ‘mais‘ (sic.) não consegui segurar o nosso amor.
Sei que você me amou de verdade, mas também sei que passou um pouco por justa causa. Eu sei. Não queria mesmo que tivesse chegado esse ponto. Eu não tenho mais expectativa de vida. Perdoe.
Não foi só sua culpa, foi minha também.
Te amei como jamais tinha amado alguém.
Queria muito que tudo fosse diferente do que ‘esta preste para acontecer‘ (sic.).
Reze por mim e que Deus me perdoe.
Breno‘
Para os pais:
‘Doe meus orgãos se possível, pelo menos não vou morrer em vão
Pai e Mãe
Vocês me desculpem pelo que estou fazendo, mas eu não aguento mais essa vida. Tudo ‘tá‘ (sic.) me fazendo mal. A Rosane foi a cereja do bolo. Não quero que vocês fiquem de amizade com ela. Queria pedir uma coisa, não sofram por minha causa, isso vai atrapalhar mais a minha passagem. Deixa eu partir tranquilo, vai ser melhor ‘pra‘ (sic.) mim.
Rezem por mim para que Deus pai me perdoe e não me castigue, mas estou muito desesperado, não quero mais ficar. Já fiz o que tinha que fazer. Agora tem o Bernardo para confortar um pouco vocês. Espero que a gente se encontre de novo e que a gente tenha uma ligação melhor. Tenho mais um pedido que quero fazer. Doe meus orgãos e também que a minha parte da herança. Vocês separem a minha com da Vanessa, e com a minha vocês aproveitem tudo, casa, viagem, torrem.
Amo vocês, pai, mãe e irmã.
Breno‘
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