O Japonês, que também atende pelas alcunhas de Júnior, de Juninho, de Luís, chega em casa, tenta quebrar o gelo, embora o calor permita fritar ovo no asfalto. Sua saudação é o recurso fático de sempre.
- E aí, está tudo bem?Está, está tudo bem, mas resolvo brincar um pouco.
- Bem? Bem coisa nenhuma, está tudo uma droga dos diabos. Não está nada bem.
- Aconteceu alguma coisa?
- Aconteceu. Claro que aconteceu, já não estou aguentando mais.
- Mas o que é que foi? Fale, o que que foi que aconteceu?
- Você quer saber mesmo? Pois vou dizer: não aguento mais o magistério, não aguento mais lecionar. É só trabalho, trabalho. Meus amigos dentistas, médicos, corretores estão todos ficando ricos. Mas, eu, não. É só miséria. Desisti, vou mudar de vida.
- Mas você é professor, não sabe fazer outra coisa.
- Não sei? Isso é o que você pensa. Vou mostrar pra você, mostrar pra todo mundo que eu sei fazer outras coisas, vou mostrar qual é a minha verdadeira vocação. Vou ser fazendeiro.
- Ser o quê? Fazendeiro?
- Fazendeiro, sim. Você vai ver.
- Você está ficando doido.
- Doido? Você ainda vai me ver engordando boi, colhendo café, enchendo caminhão de soja.
- Mas você não disse agora mesmo que não tem dinheiro, que está na miséria?
- Você não entendeu. Não é agora, não vou de uma vez. Estou me preparando devagar. Fui lá na Casa Barbosa e comprei um chapéu à prestação. Você está vendo, já é quase metade do caminho. Acabando de pagar, compro umas terrinhas, vou indo, vou indo...
O Japonês bota em mim olhar de quem visita parente lá no Hospital Alan Kardec, levanta e se vai sem se despedir. Monologo:
- Como é difícil fazer rir.Mas logo complemento:
- Às vezes.De fato. Quando visito o Ronan, às vezes me esqueço de seu habitual comportamento e vou falando:
- Vou lhe contar uma piada que ouvi hoje...Pronto, acabou a graça. O amigo dispara a rir sem parar. Só depois de uns dois minutos ele recobra o fôlego e pede:
- Conta.Não tem jeito. É só começar, e a crise de riso volta imediatamente. É-me impossível contar a piada pro Ronan.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.